Diante de outra derrota sofrida na Câmara Federal, na tramitação da reforma administrativa, o presidente Fernando Henrique Cardoso pode repetir as palavras dos céticos que dizem que ‘‘com amigos deste tipo, nem é preciso se preocupar com os inimigos’’. Com efeito, a emenda rejeitada, e que tornaria possível a contratação de pessoal para o serviço público sem a garantia da estabilidade, acabou derrotada graças à união de parlamentares de partidos que, em tese, apóiam o governo. Até mesmo membros da própria agremiação a que pertence o chefe da Nação participaram da defecção que derrubou a proposta.
O problema, como se percebe, continua a residir na falta plena, por parte de muitos parlamentares, do mínimo de senso relativo à posição político-partidária a que estão (ou deveriam estar) vinculados. Percebe-se, nitidamente, a completa inexistência de qualquer senso de lealdade ao partido que, em realidade, é o veículo através do qual o político obtém o mandato. Esta realidade de uma quase total desvinculação dos políticos a seus partidos é conhecida e reflete, mesmo, a própria falta de base dos chamados homens públicos.
Até por isto, e entendendo que havia muito de interesse pessoal na união de muitos políticos ao partido que, à época da ditadura, representava o governo, foi que, entre tantas medidas de força o regime tornou a fidelidade partidária uma obrigação. Se o político estava na Arena (o partido da ditadura), se por isso se beneficiava, então era natural que se exigisse que fosse plenamente fiel, votando com a liderança em todos os casos. A não observância da fidelidade era causa para perda do mandato. Tratava-se de medida arbitrária e que tinha o objetivo, entre outros, de garantir a maioria do governo para atender a todos os seus comandos junto ao Legislativo. Todavia, diante da fisiologia de muitos políticos, chegava a ser uma iniciativa considerada necessária para manter o equilíbrio político.
A redemocratização acabou com o instituto da fidelidade partidária como uma obrigação. Não deveria, porém, servir para que os homens públicos voltassem a fazer das legendas meros escudos ou instrumentos para uso pessoal, descartado a qualquer momento, com o mandato convertido em propriedade do político e não em uma outorga do povo. Subvertem-se as coisas e perde-se de vista a própria essência da representação política que tem nos partidos a grande fonte. Com isto, fica prejudicada a essência da prática política, em seus níveis naturais, criando-se as situações que os brasileiros já cansaram de assistir. As negociatas, as trocas de favores, os abusos à sombra do poder tornam-se moeda corrente, ficando o interesse maior, do País, totalmente obscurecido.
Restaurar o instituto da fidelidade partidária não é o meio possível, hoje, na vigência da democracia. Entretanto, é certo que os partidos, que são os detentores dos votos - a eleição proporcional se faz conforme o total de sufrágios dado a cada legenda - podem e até devem agir no sentido de enfrentar este tipo de fisiologismo negocista, inclusive usando a exclusão dos que não seguem as diretrizes partidárias de seus quadros. Afinal, cada partido tem uma plataforma e quem está nele, e por ele se candidata e se elege, deve estar comprometido com ela.
Sob tal ótica, é fácil perceber que o Executivo, hoje, deveria ter apoio suficiente no Congresso para aprovar as medidas que venha a apresentar, uma vez que os membros dos partidos que formam a coligação de apoio ao governo (e que se beneficia muito disto) constituem maioria, tanto na Câmara como no Senado. E se sofre derrotas é porque existe traição que em parte alguma poderia ser tolerada.

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