A revolta nacional - e mundial - pelo assassinato do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos por cinco jovens de classe média alta de Brasília relega a segundo plano a inacreditável ‘justificativa’ apresentada pelos autores do crime. Identificados e presos com rapidez - o que causa até surpresa -, eles alegaram que não sabiam que estavam pondo fogo em um índio. Pensavam que era um mendigo...
E por incrível que possa parecer, isto faz diferença. Porque atear fogo em mendigos é, infelizmente, uma prática muito mais comum do que se imagina, não apenas em Brasília mas em outros grandes centros. A propósito, a televisão mostrou alguns mendigos que foram vitimados por desconhecidos em São Paulo, do mesmo modo. Dormiam nas ruas, para eles seu endereço natural, e foram incendiados, literalmente. Alguns escaparam, outros morreram. Em São Paulo, uma das vítimas da ‘brincadeira’ - como os autores rotulam cinicamente o crime - continua internada na UTI de um hospital.
O inominável, no crime de Brasília, não é o fato de a vítima ser um índio - da mesma tribo, aliás, dos que viviam em Porto Seguro quando Pedro Alvares Cabral lá chegou há 497 anos. Se alguém pusesse fogo num animal, estaria dando motivo bastante para ser sumariamente internado num manicômio. No caso, o inominável é que os cinco autores do crime, ao que se sabe, não eram loucos e e a vítima não era um animal. Um ser humano foi barbaramente assassinado, com requintes de perversidade, numa evidente demonstração da mais absoluta falta de respeito pela vida alheia. Por ironia, era um índio que estava em Brasília participando das solenidades do dia em que a chamada civilização tenta apagar cinco séculos de morticínio, perseguição e abuso. Fosse ‘apenas’ um mendigo, o fato teria uma dimensão menor, nem sequer seria cogitado como alguma coisa capaz de toldar a viagem que o presidente da República faz ao Canadá.
O crime cometido é hediondo por sua própria natureza. E a reação diante dele deve ser tal que se estabeleça o repúdio da sociedade não só por ter sido um índio a vítima, mas um ser humano. Isto significa que não se admite que alguém tenha o corpo incendiado, seja membro de uma minoria ou seja, apenas, um pobre infeliz sem casa, família ou qualquer outro tipo de defesa.
Os fatos falam por si, deixando evidente que se formou neste País uma tenebrosa mentalidade com relação aos desassistidos, que vão se avolumando principalmente nos grandes centros. Ao fuzilamento de crianças de rua, às chacinas que estão fazendo parte quase que diariamente dos acontecimentos de centros como São Paulo, soma-se agora a arrogância e insensibilidade dessa atitude contra os desprovidos de tudo. Cresce, perigosamente, uma mentalidade de exclusão criminosa, quase similar à ‘solução final’ ideada pelo nazismo e que envolvia as minorias e todos os que o Poder considerava desajustados.
Os cinco criminosos de Brasília retratam uma realidade que não pode ser obscurecida. Há que submetê-los à Justiça, de forma exemplar. Mas a verdade é que não são os únicos. A sociedade brasileira precisa se levantar contra uma nova forma de preconceito que é sinal de insensibilidade inaceitável.

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