Sem milagres
O Brasil já viveu um ‘milagre econômico’. Foi nos primeiros anos do período totalitário, época de ufanismo e em que se forjou a impressão de que o País havia encontrado fórmulas mágicas para superar, quase sem dificuldades, seus principais obstáculos. O Brasil era, no dizer dos governantes, ‘‘uma ilha de prosperidade em meio a um mundo mergulhado em turbulências’’. Demorou um pouco, mas a mística do milagre se desfez. O crescimento produzido com abundantes empréstimos externos, cobrou seu preço nos anos seguintes e o País mergulhou fundo na recessão e na desesperança que ultrapassou até a ditadura, atingindo o auge no último ano do governo José Sarney. Incrivelmente, foi apenas no governo Itamar Franco, que chegou à presidência de modo inesperado, repetindo em certo sentido a história ocorrida com Sarney, que o Brasil começou a encontrar novos caminhos para tentar reverter a crise econômica. O plano de estabilização da economia, lançado naquele governo, serviu mais do que alavancar a candidatura Fernando Henrique Cardoso para dois mandatos sucessivos como presidente; representou uma alternativa real e firme para a superação dos entraves provocados pelo verdadeiro caos econômico em que o País estava mergulhado.
Em 5 anos, o Plano Real revelou-se um programa inteligente e objetivo, atingindo desde logo seu primeiro e maior objetivo: conter a inflação galopante que arruinava não só a economia, mas a própria consciência nacional. Como resultado adicional, o programa permitiu a recuperação de uma parcela da população que vivia na miséria mais plena, reduzindo os indicadores da pobreza. Está longe de resolver todo o drama da fome que atinge milhões de brasileiros e ainda enfrenta enormes dificuldades, sem lograr sequer a retomada efetiva do crescimento. O desemprego continua a ser uma tragédia para muitos. As mudanças estruturais que ocorrem no País junto aos problemas da globalização representam um desafio gigantesco, reclamando a continuidade do trabalho, exigindo a complementação das reformas e a manutenção da seriedade na luta que visa melhorar as condições de vida da população, resgatando o imenso débito social que persiste junto a uma enorme parcela do povo.
Até por causa das dificuldades atuais, a idéia de encontrar fórmulas mágicas, de reeditar o ‘milagre’ encontra sempre eco. O recente anúncio do senador Antônio Carlos Magalhães sobre um plano de combate à pobreza é apenas uma das muitas propostas que são lançadas no País, algumas evidentemente bem intencionadas, outras demagógicas, todas embaladas, porém, com a idéia de que os problemas nacionais podem ser facilmente resolvidos. Ao participar de encontro na Associação Comercial do Rio de Janeiro, o ministro Pedro Malan, foi enfático ao se voltar de modo firme contra esta verdadeira onda. Quando afirma que ‘‘não será com mágica, pirueta, canetada ou ato voluntarioso que se conseguirá reduzir a pobreza no Brasil’’, o ministro vai ao ponto, com a coragem que se reclama de quem ocupa um dos postos mais importantes nesta quadra da vida brasileira.
Não existe milagre para acabar com os problemas de um povo. Esta lição deveria ter sido plenamente aprendida com tudo o que ocorreu após os anos 90 e com os fracassos de sucessivos (e mirabolantes) planos econômicos, como o Cruzado, que davam a impressão de resolver as dificuldades sem qualquer sofrimento, mas que acabam frustrando a opinião pública e piorando a situação de todos. O que se precisa é a continuidade da luta em todos os setores: os políticos completando as reformas e o povo persistindo em seu trabalho consciente de resgate de sua própria dignidade.

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