Nos anos 30, a agricultura brasileira se encontrava diante de um desafio terrível: a formiga saúva, considerada um verdadeiro flagelo para o produtor rural. E por causa dela, lançou-se uma campanha nacional que tinha um slogan definitivo: ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil. Foi um esforço nacional, completo, que deu resultados, provando outra vez que quando há vontade de enfrentar desafios, é possível vencer qualquer obstáculo.
Neste começo de verão, o Brasil se defronta com outra preocupação. Pelo menos nos últimos 10 anos, a chegada da estação representa também o surgimento de epidemias típicas do período, as chamadas doenças de verão. Este ano, está sendo lançado o Plano de Erradicação do Aedes aegypti que pretende varrer do território nacional a dengue e, por tabela, várias outras doenças epidêmicas,
Não é de hoje que o Brasil luta contra a dengue. A cada ano, principalmente nesta época, a doença se manifesta com mais força e, paralelamente, surgem campanhas para combater o mosquito transmissor, única forma efetiva de conter a doença. Mas, agora, ao contrário do que acontecia antes, surge um projeto nacional, orçado em R$ 4,5 bilhões e previsto para durar três anos, que vai mobilizar até as Forças Armadas. O PEAa será lançado oficialmente em 30 de março de 97, quando 65 mil agentes de saúde sairão às ruas para acabar com os focos de reprodução do mosquito, mas a fase inicial do plano já está em curso. Os órgãos municipais e estaduais de saúde se encarregaram de criar comissões executivas do programa, treinar pessoal e fazer um levantamento sobre a presença do mosquito em todos os municípios do País.
O secretário-executivo do PEAa, Jaime Calado, diz que o plano é mais abrangente do que as campanhas feitas anualmente para evitar a doença. ‘‘Trata-se de um trabalho de erradicação da doença, é algo muito mais rigoroso do que o simples controle, como era feito até então’’, afirma Calado. Como o plano prevê também investimentos em saneamento básico, ele acredita que outras epidemias de verão, como a leptospirose - transmitida pela urina de rato, com maior incidência em locais onde acontecem inundações -, ocorrerão com menor frequência. ‘‘Uma das vantagens do plano é que todas as ações vão servir também para evitar as outras doenças’’, lembra.
Das chamadas ‘‘doenças de verão’’, a dengue é a mais preocupante. Mas o Aedes aegypti também transmite o vírus da febre amarela. E é válido o temor de que a febre amarela pode reaparecer, se não houver um trabalho efetivo no combate ao mosquito transmissor. Vale lembrar que há 54 anos não ocorrem casos da doença no País. O perigo pode ser avaliado pelo simples fato de que a incidência da febre amarela leva ao fechamento de portos e aeroportos, porque a doença é de notificação compulsória internacional. Enquanto houver o Aedes aegypti, existe o perigo da dengue e da febre amarela.
O Brasil conseguiu eliminar a dengue duas vezes ao longo desse século - na década de 40 e nos anos 70. Atualmente, o único Estado onde o Aedes aegypti não está presente é o Amapá. O campeão em casos da doença é a Bahia, onde até agosto 48,2 mil pessoas foram infectadas com o vírus da dengue. Em todo o território nacional, foram registrados 135 mil casos até agosto, e a expectativa do Ministério da Saúde é de que até o fim do ano esse número chegue a 150 mil - 26 mil casos a mais que no ano passado. Enfrentar este desafio é fundamental. E o modo como o Brasil se mobiliza dá esperanças de que esta campanha pode ser muito bem-sucedida.

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