Editorial
A História do Brasil, como é ensinada nas escolas, é parca de heróis. Os mais importantes acontecimentos vêm cercados ou de um certo descaso ou de uma aura de paternalismo como se o povo jamais tivesse sido agente em sua própria evolução. Assim, conta-se, no primeiro grau (que, normalmente, para a maioria, é a única fonte de referência), ainda agora, a descoberta como obra do acaso. A independência é mostrada como um presente do príncipe regente que, de qualquer modo, seria o governante monárquico do País. A abolição da escravatura é apresentada como um gesto magnânimo da princesa Isabel.
Também por isto, a figura de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, ganha uma dimensão ainda maior. Sem qualquer dúvida, o Alferes que sonhou com a independência do Brasil merece todas as homenagens que lhe são feitas. Tamanha foi sua devoção à idéia libertária que aceitou entregar-se à morte, assumindo toda a culpa na conjuração mineira. Sua visão, os planos que elaborou, a coragem de ir contra o poder colonial, tudo torna sua figura maiúscula na História. Ocorre que o sonho de Tiradentes não foi o primeiro. A Conjuração Mineira aconteceu quase ao final do século 18. O Brasil já existia há cerca de 300 anos. Antes daqueles eventos, outros movimentos ocorreram, buscando a liberdade. Depois, também. Em alguns casos, houve revoltas localizadas. Muitos dos que pensavam em se libertar da tutela do Reino buscavam atingir apenas certa parte do território. Mesmo assim, seus anseios representavam o nascimento de uma consciência, que é a base para o verdadeiro surgimento de uma nacionalidade.
A verdade é que a História no Brasil foi, também, manipulada. Não há mistério nisto. Nada melhor para manter um povo submisso do que a idéia segundo a qual os que governam cuidam plenamente de seus interesses. Para que lutar pela independência, se o próprio herdeiro do trono a dá? O mesmo em relação à escravidão, abolida pela princesa que estava regendo o Império. Até mesmo a República é mostrada como resultado da ação de alguns políticos e militares, garantindo ao povo a transformação que, em outros pontos do mundo, custou sangue e sacrifício.
Com tais artifícios, conseguiram os tutores do povo atingir seu objetivo por muito tempo. O brasileiro tinha uma auto-estima baixa, até há poucos anos. Esperava, e muitos ainda esperam, tudo da parte do grande pai, o governo. As dificuldades que foram surgindo, porém, acabaram fazendo o povo crescer. E na falta de heróis escondidos pela História, os brasileiros foram, todos eles, se tornando heróis na luta, assumindo, principalmente nos anos recentes - e a queda da ditadura de 64 a 85 é um exemplo disto - o destino nas próprias mãos e passando a escrever com coragem sua História.
Reestudar os fatos que marcaram a vida do Brasil nestes quase 500 anos de existência - e o quinto centenário da Descoberta, em 2000, é um bom motivo para esta revisão - pode ser um exercício gratificante para todo o povo. Vai-se descobrir que os brasileiros têm tanta coragem e disposição para lutar por seus ideais quanto os povos de outros pontos de mundo. Também será possível perceber que o heroísmo do homem humilde que luta pela vida e que cumpre seu dever de cidadania é tão amplo quanto o dos que realizam tarefas destacadas pela História. Mas, principalmente, poderá ser tirada a conclusão maior sobre a coragem e a disposição de um povo que, sem alarde (e até sem sentir) conseguiu forjar um exemplo de civilização e de trabalho. Poderemos perceber, afinal, que não há poucos heróis neste país: todos os que viveram e vivem aqui são efetivamente heróis nacionais.





