A campanha pelas diretas foi o grande despertar do povo no sentido de tentar pacificamente, mas com disposição, assumir seu verdadeiro papel na vida democrática. Antes disto, a população já havia dado mostras de amadurecimento ao aproveitar as brechas possíveis contra os casuísmos da ditadura, elegendo nas urnas contingentes cada vez maiores da oposição e tirando a cada novo pleito mais terreno da repressão. Pretender, como esta semana alguns afirmaram, que a referida campanha tenha fracassado por não ter conseguido à época que o Congresso aprovasse a emenda das diretas, é querer ofuscar a História. Sem a campanha, o processo de redemocratização teria demorado mais. Com ela, a emenda não foi aprovada, mas permitiu que a ditadura fosse derrotada em seu próprio jogo, já que eleição dos candidatos da oposição no pleito presidencial indireto abriu caminho para a volta da democracia.
Até por isto, a Constituição, que surgiu como uma das decorrências da redemocratização, consagrou entre as formas de participação do povo no processo de governo a ação direta, que entre outras coisas se representa por aglutinações como esta do Movimento dos Sem Terra em Brasília. Se é certo dizer que o MST, apoiado por várias outras entidades, invadiu Brasília, é igualmente correto asseverar que se trata de invasão legítima e legal, diversa da que se faz em relação a propriedades privadas. Brasília, centro do poder, não pode ser apenas uma Capital distante e em que os governantes se encastelam em gabinetes fechados, sem contato direto com a realidade nacional.
Naturalmente, se pode dizer que isto não ocorre porque estão lá os legítimos representantes do povo. Ocorre que muitas vezes o poder outorgado aos que foram eleitos acaba inebriando alguns. Durante muitos anos, vale rememorar, chamou-se Brasília de ‘ilha da fantasia’. Também era muito comum afirmar-se que havia dois brasis: o de Brasília, totalmente alheio à realidade, e o outro, de um povo que lutava e trabalhava sem descanso e, muitas vezes, sem apoio. Quando o povo, após ter lotado praças e ruas com manifestações pelas diretas, resolveu invadir Brasília levar seu reclamo, surgiu uma nova realidade política, nasceu efetivamente o senso de cidadania dos brasileiros.
O ideal da democracia é, sem dúvida, a participação direta do povo em todo o processo. As próprias circunstâncias é que trouxeram a necessidade da criação dos meios pelos quais o povo escolhe seus representantes. Entretanto, a eleição não é abdicação do poder. E a manifestação popular, organizada, ordeira, como esta que aconteceu em Brasília, representa precisamente este tipo de canal mais amplo através do qual a população pode se expressar. Assinala-se que esta ‘invasão’ de Brasília foi a maior manifestação contrária enfrentada pelo atual governo em seus dois anos de mandato. E isto também é salutar na medida em que representa verdadeira chamada aos governantes sobre suas responsabilidades.
A resultante disto, o convite do presidente às lideranças da manifestação para um encontro, é positiva. A presença de outros grupos de apoio e solidariedade, igualmente o é. Há que destacar em todo o episódio, ademais, o respeito à ordem, fundamental para que se tenha a efetiva consagração da atuação democrática do povo. Os participantes da manifestação, com sua mobilização legal, com o apelo pela solução ao dramático problema da terra, deram também importante contribuição ao verdadeiro sentimento de cidadania que marca, de modo pleno, o caráter de um povo.

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