Enquanto os chamados aliados do Executivo no Congresso se revoltam contra o governo, ameaçando a reforma administrativa, Brasília recebe manifestantes igualmente contrários àquela mudança, realizando trabalho forte de ‘convencimento’ junto aos parlamentares. Com isto, fica mais distante a concretização do referido projeto, o que põe em risco todo o plano econômico do País. E se isto não fosse ainda o suficiente, são fortes os temores quanto à possibilidade de a prorrogação do Fundo de Estabilização Fiscal ser negada. Também neste caso os parlamentares enfrentam pressões de governadores e, principalmente, prefeitos.
O incrível é que a população brasileira, em sua esmagadora maioria, apóia o plano de estabilização e sente os excepcionais efeitos da mudança que aconteceu em toda a vida nacional desde que tudo começou, há 3 anos. Este apoio tão amplo ao projeto deveria implicar em natural movimento a favor das reformas que representam a base do plano. O problema, naturalmente, é que continua a faltar, principalmente por parte do Executivo, a comunicação correta junto à população para deixar clara a situação toda. Ao invés de tentar ‘negociar’ com um Congresso que tem se mostrado muitas vezes altamente fisiológico, o governo deveria ter, desde o início, levado ao povo a íntima relação que havia entre a estabilidade e as reformas.
O que complicou um pouco as coisas, por paradoxal que pareça, foi o sucesso rápido do plano. Quer dizer, sem as reformas, sem mudanças estruturais, sem nada, a inflação caiu mesmo, as coisas começaram a funcionar, não houve o refluxo de outros projetos, como o Plano Cruzado, que em poucos meses se esgotou e fracassou. Como na época em que tudo começou o País estava envolvido em uma campanha eleitoral e como era até interessante para o governo capitalizar tudo, não se falou muito na parte dura da questão. Não se ponderou que em uma economia tão indexada a queda rápida da inflação (simplesmente com a desindexação plena), era natural. Nem houve muito destaque para o fundamental papel que exerceu sobre o projeto o Fundo Social de Emergência, criado antes da URV e do surgimento do real, que garantiu meios para que o Executivo contornasse as dificuldades com seu enorme déficit.
Este desconhecimento popular é explorado pelos aproveitadores, pelos mal-intencionados por todos quantos insistem em defender seus interesses sem levar em conta o que de fato importa para a nação. Há mais de 2 anos as reformas (entre as quais a administrativa) vêm sendo torpedeadas. O Executivo tem-se tornado quase que um refém do Congresso, sendo obrigado a cada passo a ‘negociar’ apesar de ter, em tese, maioria no Legislativo. Os projetos são deformados, mutilados mesmo, numa tramitação lerda e cansativa. E, paralelamente, instigam-se manifestações contrárias, sem levar em conta o fato principal de que sem as reformas (e, no momento, sem os recursos do FEF), o projeto pode simplesmente naufragar.
A irresponsabilidade não tem limites, sabe-se. A verdadeira novela em que se converteu a tramitação das reformas parece longe de terminar. As pressões contra o FEF também são imensas. Sabe-se que prefeitos que reclamam da falta dos recursos direcionados para o FEF têm alguma razão. Entretanto, não se pode perder de vista o fato global: acabar com o FEF dará mais verbas para os municípios. Mas pode comprometer de tal modo o projeto econômico que os efeitos negativos disto acabarão por atingir a todos, inclusive as municipalidades. É preciso que se coloque o interesse do Brasil em primeiro lugar.

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