Editorial
Nem houve tempo para o eleitor comemorar sua vitória, com o anúncio da retirada da emenda que duplicava o teto de pagamentos para os marajás do funcionalismo, e já se anuncia nova investida dos nossos representantes contra o erário público. Uma vez que não foi possível dobrar o teto, restando aos privilegiados desta República ter de se contentar com apenas pouco mais de R$ 10 mil de ganho por mês, resolvem atacar por outro flanco. Levando em conta que já há alguns servidores ganhando mais que o teto, algo em torno de R$ 12 mil, o planejado é aumentar os vencimentos do presidente da República, dos parlamentares e do Judiciário para aquele novo teto, com o que haveria um ganho mútuo: os que estão acima do teto não seriam prejudicados e os demais ganhariam um pouco mais, pois afinal se sacrificam em benefício do povo.
A primeira reação diante desta nova tentativa de avançar sobre o dinheiro público é de ira natural. A impressão é a de que não é possível vencer a ganância de alguns dos que representam - ou deveriam representar - o povo. Entretanto, a simples percepção de que este golpe, como o anterior relativo ao teto, é imediatamente divulgado deixa clara a grande vantagem da democracia, com uma imprensa atenta e atuante. É, de certo modo, a grande luta entre o bem e o mal, este representado pelos que querem, em qualquer circunstância, levar vantagem, explorar o povo, transformar a coisa pública em sinecura particular.
Sempre haverá os espertalhões. Faz parte da História da raça humana, da vida dos povos. E, como se sabe, ao longo dos séculos eles levaram vantagem, criando meios e modos para dominar o povo, explorá-lo de muitas maneiras. A História está aí povoada de personagens que exploraram, enganaram, tripudiaram sobre os homens. Mas a raça humana também evoluiu e, do ponto de vista político, o grande salto foi a democracia, regime em que o povo determina seu destino. Os exploradores não deixaram de existir, mas hoje - e, naturalmente, nos locais em que há o regime democrático -, eles têm de enfrentar a ação contrária dos que não querem aceitar a prepotência, a exploração, o assalto aos bens públicos.
Logo após a redemocratização de 1945, um dos partidos criados à época, a UDN, tinha como slogan a frase O preço da liberdade é a eterna vigilância. Junto com as outras agremiações, aquela se foi durante a ditadura que surgiu em 64, mas o seu tema continua válido. Liberdade e democracia não são presentes que alguém outorga ao povo, são conquistas. E mantê-las exige trabalho, luta, disposição, coragem, vigilância. A emenda que duplicava o teto dos vencimentos para os marajás foi um teste: o povo se mostrou vigilante. Esta nova ofensiva, visando aumentar vencimentos, que já são elevados - ainda mais em comparação com o que ganha o povo -, deve receber a mesma resposta, isto é, a luta contra o abuso.
O importante nisto é a transparência que a democracia propicia. É certo que persistem muitos e complexos problemas, que ainda existem os que continuam a agir nas sombras, assaltando os cofres públicos de múltiplas formas. Mas, paralelamente, tem-se visto como os abusos são denunciados, as fraudes reveladas e os responsáveis colocados ante o julgamento da opinião pública. Reclama-se que ainda faltam punições ou que os espertalhões não param de inventar meios para levar vantagens. Isto dá maior validade ao slogan da citada UDN, deixando clara a necessidade de se manter a vigilância para proteger a democracia.





