Editorial
O que o ministro Bresser Pereira transmitiu, durante encontro com prefeitos e vereadores eleitos do PSDB, em Campo Mourão, é pura e simplesmente uma lição de economia doméstica, que deveria fazer parte das primeiras preocupações de qualquer administrador. Pôr ordem na casa, é fundamental para uma boa administração, disse o ministro. É o conselho mais óbvio que se poderia dar. Entretanto, como a grande maioria não percebe o óbvio e como persiste a errônea mentalidade de que os órgãos públicos devem funcionar como coração de mãe, atendendo a tudo e a todos, a lição do ministro é mais que oportuna e serve a todos quantos recebem um mandato.
A mentalidade segundo a qual os organismos públicos (federal, estaduais e municipais) devem gastar à vontade, sem qualquer limite, é anterior à época da inflação absurda dos anos recentes. Ela vem mesmo desde o Brasil Colônia, período em que a única atividade aceitável para os nobres era um serviço público, uma forma de manter o sustento sem qualquer obrigação de dar a contrapartida. O Brasil se tornou independente, mas a idéia persistiu, continuando também ao longo da República. O governo era quase que um tipo de filho pródigo, a esbanjar continuamente os recursos, sem maiores preocupações. Ademais, como se sabe, prefeituras, governos de Estado ou a União não podem falir. Quanto ao governo central, ainda tem vantagem adicional: pode emitir dinheiro para cobrir suas despesas ou jogar títulos no mercado. Claro que tudo isto deteriora a economia, pressiona a coletividade, leva ao descalabro, mas tem sido difícil fazer passar esta simples lição ao entendimento dos chamados administradores públicos.
O diagnóstico feito para a economia brasileira por todos quantos entendem do assunto foi sempre este: na raiz dos males nacionais estava exatamente o abuso dos governantes, o déficit permanente que pressionava todos os outros valores. Quando se lançou o atual plano de estabilização da economia, no último ano do Governo Itamar Franco, estava na base de tudo, como condição imprescindível ao êxito pleno do programa, o zeramento do déficit público. Tudo o mais era (como de fato foi) importante, mas sem o fim do déficit, o plano não teria como se manter ao longo do tempo.
Este continua a ser, ainda agora, o grande desafio. Governantes viciados, como todos os outros, com a escalada inflacionária, enfrentaram maiores dificuldades para se adequar aos novos tempos. Entretanto, persiste e se amplia o desafio. Os governos federal e estaduais que emergiram logo depois do lançamento do real, infelizmente, não conseguiram até agora atender a este imperativo. Há causas conhecidas, como a falta da realização das reformas estruturais exigidas pelo próprio programa. Há também a persistência das velhas práticas, a onerar governos e a pressionar os erários públicos.
Agora, novos prefeitos vão assumir, já vivendo em outro clima econômico. E é imperioso que percebam a importância da tão simples lição apresentada pelo ministro da Administração aos prefeitos (principalmente) e vereadores eleitos. É vital para os municípios e para o próprio país que estas novas administrações comecem dentro desta ótica. A mentalidade da gastança irresponsável precisa ser banida, inclusive como imperativo para a própria sequência do projeto econômico, que conta hoje com o apoio inconteste do povo. Os novos prefeitos têm a missão e até a responsabilidade de iniciar uma nova era na vida pública nacional. Levando a sério esta principal responsabilidade, não apenas corresponderão às esperanças do povo, mas darão um exemplo político necessário neste momento.





