A indignação que varreu praticamente todo o País produziu frutos. O presidente Fernando Henrique Cardoso sugeriu, a Câmara concordou e a emenda que duplicaria o teto para os salários e aposentadorias no serviço público não será apresentada. Como se recorda, para conseguir os votos necessários à aprovação da reforma administrativa, o próprio presidente concordou com a apresentação de emenda que permitiria a duplicação do teto de vencimentos anteriormente acordado. Com apenas um voto além do mínimo necessário, a matéria foi de fato aprovada. Mas a concessão relativa à questão do teto provocou tamanha grita que todos os envolvidos resolveram recuar.
Isto é democracia em ação. O povo, detentor do poder, conforme está definido expressamente na Constituição, delega este poder através do voto, escolhendo representantes para todos os escalões e para os Poderes constitucionais formados por eleição, Executivo e Legislativo. Mas ao votar, não transfere o poder, não abre mão dele, apenas defere a seus eleitos a condição de governar em seu nome. Naturalmente, como é um processo humano, tem falhas. Muitas vezes o representante eleito não segue fielmente o pensamento do eleitorado. E para o povo existe apenas a possibilidade de corrigir seu equívoco em outras eleições, tirando o cargo daquele que decepcionou. Mas sempre fica a impressão de um vazio, porque enquanto no exercício do mandato o representante pode fugir a suas atribuições. E não poucas vezes o faz.
Todavia, temos neste episódio a evidência de que não é apenas pelo voto, e também por extensão somente na época dos pleitos, que o povo tem condições de fazer ouvir sua voz. Para isto, funciona o outro canal do povo, que é a existência de uma imprensa livre, que serve de porta-voz, produz o eco das frustrações, da indignação, como no caso, e também da concordância da população. Foi a imprensa, sem dúvida, que canalizou a reação ao absurdo de uma emenda que mantinha privilégios, em nível efetivamente inaceitável, provocando a resposta dos que exercem o poder.
É um grande momento de exercício democrático. Entretanto, esta verdadeira vitória da democracia produz preocupação adicional. Mesmo com a garantia da emenda, que beneficiava muitos parlamentares, ampliando o teto para os vencimentos no serviço público, a Câmara só aprovou a reforma administrativa por um voto. Hoje, ninguém garante que, no segundo turno, a reforma passará. O presidente da Câmara assinalou que deverá haver muitas negociações, como de hábito. Esta afirmativa, quase que em seguida à denúncia da Igreja sobre corrupção em torno da votação da emenda relativa à reeleição até assusta. É fato que o presidente da República já negou enfaticamente os termos da acusação contida no documento apresentado aos bispos do Brasil. Ocorre que os brasileiros estão muito receosos com o comportamento de seus governantes, não só por causa do que a Igreja afirmou, mas por tanta coisa que tem acontecido na tramitação das reformas, assim como diante de muitos fatos relatados desde a convocação da Constituinte.
A reação popular encontrou resposta pronta e direta, representando sem dúvida vitória da democracia. O processo, porém, é continuado. Os membros do Executivo e do Legislativo ainda estão devendo ao Brasil uma ação mais concreta e patriótica no seu trabalho, notadamente em relação às reformas que estão intimamente vinculadas ao próprio processo de estabilização da economia. Os governantes precisam trabalhar muito para recuperar a confiança do povo.

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