Editorial
Não se tem memória de uma crítica tão violenta da Igreja ao governo, áquanto esta difundida no documento preparado pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Social (Ibrades) e que serivrá de base para o pronunciamento da CNBB sobre a questão social no País. Apesar da alegação de que não se trata de uma palavra oficial, sua simples divulgação produz espanto, dada a virulência de algumas denúncias que incluem tanto o Executivo quanto o Legislativo, ambos acusados de corrupção, ativa no caso do primeiro, passiva, no do segundo.
Além das críticas à atuação do governo federal, no âmbito social, com a afirmação de que as plataformas de campanha não estão sendo realizadas, o documento acusa o Executivo de comprar votos dos parlamentares durante a votação da emenda da reeleição, com oferta de cargos e favores, isenções fiscais, anistia de dívidas e socorro a instituições financeiras. Na realidade, muito do que o documento afirma é parte do que uma ponderável parcela da população até pensa. O problema é que todos são livres para pensar o que queiram. Mas quando se lança, oficialmente, uma acusação, como no caso, isto deixa o terreno do hipotético para se tornar um fato. E quando a acusação parte de um organismo como a Igreja Católica, então isto ganha o peso da própria instituição.
Uma acusação deste naipe não pode ficar no ar. O próprio Executivo acaba quase que forçado a se posicionar, exigindo até a comprovação da denúncia. Cria-se, com isto, uma situação muito delicada, até porque se há coisa difícil de comprovar - e também por isto muitas vezes coisas que o povo pensa não chegam a ser divulgadas - é esta questão da corrupção. Tanto o agente ativo quanto o passivo não têm nenhum interesse em divulgar o assunto. Ademais, eventuais favorecimentos podem, perfeitamente, ser apresentados como ações normais ou naturais, no universo político.
O conhecimento sobre as negociações que o Executivo precisa realizar para conseguir apoio do Legislativo para seus projetos, existe há tempos. E não é nem uma prática deste governo, é algo que faz parte do próprio sistema político. A existência de Poderes independentes e harmônicos cria mesmo uma situação que leva à negociação. O Executivo por vezes não tem maioria no Congresso e precisa fazer coligações para consegui-la. Isto faz parte do chamado jogo da democracia. Entretanto, naturalmente, devem existir (e seguramente existem) limites entre o que é negociação política e o que é negociata ou politiquice. Muitas vezes, estes limites não são muito claros, ficando as coisas na nebulosa zona que provoca as dúvidas sobre o modo como o poder se exerce.
No caso em tela, porém, a denúncia é clara, sem qualquer disfarce. O documento do Ibrades não usa o condicional, nem adota palavras que poderiam minimizar o teor da acusação. Ali se fala de corrupção, ativa e passiva, aponta-se diretamente para o titular do Executivo como responsável pelas negociatas e, embora não nominando membros da Câmara, que votaram a emenda, não seria difícil sua identificação. E ainda que a Igreja não tenha um poder político, sua atuação junto à opinião pública é forte e, de qualquer modo, o efeito de suas denúncias, muito grande.
Inegavelmente, este documento deveria servir para levantar de vez o véu que vem surgindo a respeito das relações entre Executivo e Legislativo. O que as denúncias contêm é parte do que muitos comentam, por toda parte. E isto, também, ajuda a conspurcar a própria democracia. Negociar é uma das necessidades na ação política. Mas negociata, corrupção, troca de favores por votos, isto é uma coisa que não deveria existir na vida de um país civilizado.





