Editorial
A possibilidade da adoção de medidas de restrição ao crédito, várias vezes cogitadas por especialistas do Governo, parece mais próxima segundo as informações de acordo com as quais o assunto pode vir a ser analisado na próxima reunião do Conselho Monetário Nacional. Segundo as notícias, esta eventual contenção teria também efeito sobre os resultados do mercado exterior, notadamente automóveis e eletrodomésticos, porque mesmo os que são produzidos no País tem alto grau de componentes importados.
Os técnicos não querem falar em restrições à demanda, preferindo dizer que desejam reduzir a taxa de crescimento do consumo. Embora a impressão segundo a qual toda esta discussão semântica pareça tola, há sem dúvida uma certa diferença. O Governo, conforme insiste o Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, José Roberto Mendonça de Barros, não quer recessão, mas percebe que não é possível manter um crescimento de até 50% no consumo com 70% do crédito. Só este fator, o de um crédito que inclusive pode produzir problemas na medida em que o consumidor pode perder de vista suas reais possibilidades, já é de fato preocupante. Ao lado disto há, também, o aspecto da inadequação entre demanda que continua a crescer e a oferta que não acompanha esta situação.
a questão, como sempre, continua a ser da manutenção do equilíbrio para que se evite que na busca de uma redução no consumo ocorram fatos paralelos de retração econômica em geral. Esta tem sido sempre a maior das preocupações dos gestores do plano de estabilização que, muitas vezes, têm sido até obrigados a adotar medidas que parecem conflitantes, mudando regras e criando certa incerteza. De fato, para a produção, é fundamental que as regras sejam estáveis, como a moeda. Todavia, diante da delicada situação da economia brasileira, que não poderia se recuperar em pouco tempo de todo o descalabro a que foi submetida, é compreensível a necessidade de alterações de curso em dados momentos.
É valioso observar que o próprio Governo, ao assumir a possibilidade de adotar outra vez medidas para restrição de crédito, indica ter aprendido a lição do passado. O secretário Mendonça de Barros deixa claro isto quando afirma que se o Governo adotar medidas anti-consumo elas serão localizadas. Quer dizer, não serão diretrizes afetando todo o setor de consumo, mas medidas que atinjam setores específicos - automóveis e eletrodomésticos, principalmente - ao mesmo tempo em que haverá medidas destinadas a incentivar outros setores. Um programa, enfim, que evitará qualquer tipo de conotação recessiva e que, ao contrário, tentará direcionar melhor as atividades produtivas.
A adequada atuação das autoridades econômicas, no acompanhamento do plano de estabilização, serve como garantia para que se possa esperar, sem temor exagerado, as possíveis medidas de restrição que o Conselho Monetário Nacional pode adotar neste final de mês. Apesar de tudo, os responsáveis têm um certo crédito por que têm conseguido conduzir as coisas, superando os obstáculos maiores, com uma taxa de acerto maior que a dos erros. Ainda assim, face à própria situação do País hoje, ainda enfrentando uma elevada taxa de desemprego e reclamando medidas capazes de garantir o crescimento que mude este quadro, as eventuais alterações causam certa ansiedade. O desejável era que as mudanças sejam rapidamente anunciadas e implementadas, o que também ajuda a conter a expectativa. Mesmo porque, até que sejam efetivamente concretizadas as modificações, haverá sempre uma certa tensão.





