Há uma coisa que é indiscutível no Brasil: o Plano Real, implantado pelo governo Itamar Franco, implementado pelo governo Fernando Henrique Cardoso, garantiu para o Brasil uma recuperação em que poucos acreditavam. Mais, é o responsável por um grande resgate social, trazendo novamente à vida milhões de marginalizados. E é possível dizer não apenas que o plano de estabilização da economia salvou o Brasil, que estava mergulhando de modo cada vez mais perigoso no caos: sem aquele programa, não há como sequer imaginar qual seria a situação atual do País.
E a grande maioria da população sabe disto perfeitamente. Abraçou o plano, assim como, aliás, tinha feito em outras ocasiões, porque o povo tem percepção sobre suas necessidades e quer o melhor. No Plano Cruzado, houve uma mobilização enorme, até um pouco excessiva. Infelizmente, não foi o povo que falhou, era o programa que estava mal formulado e, para piorar, foi usado com fins mais eleitoreiros do que de cunho patriótico. Vieram outros, até mesmo o grande assalto formulado pelo governo Fernando Collor, congelando o dinheiro - inclusive a poupança - de quase todo o mundo, e o povo também apoiou. Outra vez, o fracasso terrível.
Felizmente, a engenharia do Plano Real foi diferente. O apoio da população desta vez não resultou em frustração. A economia brasileira, hoje, é sólida, a moeda é firme, confiável, os preços estão sob controle, a inflação apavorante é coisa do passado (embora recente) e não há quem, em sã consciência, queira a volta da terrível situação anterior ao real ou o restabelecimento daquela inflação que destroçava não só a economia mas a própria fibra do povo. Pois o descalabro econômico também representa aviltamento social e cria terríveis desvios comportamentais. Isto sem falar que a faixa mais carente é a que paga o preço maior em tais circunstâncias.
Ocorre que o plano, desde que foi formulado, trazia como requisito básico para se concretizar de modo pleno a realização das reformas estruturais. O descalabro econômico que levou o país à devastadora inflação tinha como base a estrutura absurda de um Estado monstruoso, com uma verdadeiramente anacrônica máquina de governo. Como não era viável realizar, de imediato, as mudanças, os engenheiros do plano criaram alternativas, como o Fundo Social de Emergência, que se transformou agora em FEF e que corre o risco de não ser prorrogado. Todavia, a necessidade de se prorrogar anteriormente o FSE decorreu, precisamente, do fato de não se ter realizado até então - como não se fez até agora - as reformas reclamadas pelo plano.
Continua a faltar uma campanha mais concreta de esclarecimento público sobre a vital necessidade das reformas. Anuncia-se para esta semana uma mobilização contra elas, por parte de trabalhadores e, principalmente, funcionários públicos. É só mais um episódio que tem também contado com a grande campanha dos que a sabotam por interesse pessoal. O que se vê é de um lado os privilegiados defendendo suas vantagens e, do outro, uma parcela da população temendo as reformas, sem que se perceba que no meio disto tudo está o Brasil, que é (ou deveria ser) mais importante que a exploração de uns e, até, o temor de outros.
Sem as reformas, profundas e patrióticas, este maravilhoso plano de estabilização corre riscos. Não houve milagres quando se formulou o programa, não há milagres agora. O problema é que tudo quanto se conseguiu até agora, com sacrifício e luta da população, pode ir pelo ralo se não houver, e com rapidez, a complementação das reformas estruturais, para garantir a estabilidade já conquistada.

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