Constitui verdadeira obscenidade a artimanha utilizada para que a Câmara Federal aprovasse, em primeira discussão, a tão necessária reforma administrativa. O compromisso de se estabelecer o dobro do limite sugerido pelo Executivo como teto para o pagamento aos servidores é quase como uma bofetada na face de todos os brasileiros. Os representantes escolhidos para determinar regras destinadas a dar melhores condições de vida ao povo, continuam a se mostrar insensíveis e dispostos a utilizar os cargos em benefício pessoal, se autogarantindo as vantagens e privilégios, sem qualquer prurido de consciência. E ainda se defendem, alegando que estão dentro da lei, pretendendo com isto enganar ainda mais a todos, sem destacar que são eles os que fizeram estas leis, que tanto os beneficiam e de modo tão vergonhoso.
Este tipo de atitude verdadeiramente imoral chega a ser pior que a violência policial, que ocupou nos últimos dias as manchetes dos jornais, as atenções do povo e provocou o horror a todos. De fato, até como diz Jesus Cristo, o ser humano deve temer menos aqueles que podem destruir o corpo. Os verdadeiramente perigosos são os que colocam a alma em risco. E com atitudes como esta, garantindo limite de mais de 20 mil reais para seus ganhos acumulados, enquanto o povo luta para ganhar pouco e, quando se aposenta, recebe ainda menos, os parlamentares atacam a alma da democracia, sufocam o senso da cidadania, provocam junto ao povo o sentimento de que está sendo usado e explorado pelos que o deveriam conduzir.
O limite que se havia estabelecido, de R$ 10.800,00 para vencimentos, incluindo salários e aposentadorias, já podia ser considerado elevado, em comparação com o mínimo que se paga aos trabalhadores não qualificados (e até a muitos com qualificação, que não conseguem emprego), e até mesmo em cotejo com o salário médio da esmagadora maioria da população. Mas não era o suficiente. O negócio dos parlamentares - ou pelo menos da maioria que fez questão fechada do dobro daquele teto -, é tirar o máximo do povo, que é quem paga toda esta conta.
A reforma administrativa, assim como as outras alterações estruturais, visa conter o chamado Custo Brasil, esta enormidade que a população tem de pagar para sustentar seu governo. Todavia, para conseguir uma reforma que não é nem de longe o que se reclama, com tantas concessões já feitas, o Executivo teve ainda de atender a mais esta exigência: ou um teto de pouco mais de 20 mil reais para os marajás, os potentados, os exploradores do povo, ou a reforma não sairia. Um caso típico de chantagem. Entretanto, o que é mais uma destas manobras diante de tantas outras que o povo brasileiro vem conhecendo, principalmente depois da redemocratização?
E isto é ainda pior. Estas indignidades estão ocorrendo sob a democracia que o povo exigiu, pela qual a população lutou, e em nome da qual muitos morreram. Tudo começou com a Constituinte, convocada para acabar com os resquícios do autoritarismo, destinada a escrever uma Constituição elevada para garantir o futuro do País. E o que se viu ali foram negociatas, o estabelecimento da política do ‘dando é que se recebe’, as trocas de favores e, no fim, uma Carta eivada de abusos, tornando, como disse à época o presidente José Sarney, o Brasil ingovernável. De então para cá, apesar da grandeza do Plano Real, o panorama parece não se modificar. E este novo capítulo da ‘reforma administrativa’ joga mais um pouco de cal na esperança do povo e no sonho da democracia.

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