Explodem em vários pontos do País denúncias sobre a violência da Polícia Militar. A impressão é a de que se abriu uma caixa que revelou um interior tenebroso e assustador, provocando pasmo e pavor junto à população. Ocorre que esta realidade de uma polícia arbitrária, de policiais truculentos, de violência assustadora não é fato desta época, nem mesmo é situação que se tornou conhecida agora. A história da segurança no Brasil vem sendo escrita há séculos pela violência, pelo abuso, pela prepotência de quem recebe a - teoricamente - sagrada missão de proteger a vida e a integridade dos cidadãos.
Quando o presidente Fernando Henrique Cardoso diz que o abuso policial decorre da ‘boçalidade’ dos policiais, está apenas circundando a questão. Lamentavelmente, toda a reação emocional provocada pela repentina revelação de atos de violência em São Paulo e Rio (todos devidamente documentados por cenas gravadas em vídeo), unida às outras situações que vêm sendo denunciadas agora, corre o risco de não provocar o aprofundamento que a questão reclama. Adjetivar os policiais, criar leis mais duras para punir os abusos, provocar grita nacional, inclusive visando mudar toda a estrutura da polícia, com a já antiga tese da unificação, isto não chega ao âmago do problema.
Ocorre que pode não interessar, efetivamente, ir a fundo porque, como já foi repetido, a responsabilidade primária pela situação é das autoridades. A segurança pública é obrigação dos governos dos Estados. Se há policiais ‘boçais’, apenas para usar o adjetivo empregado pelo presidente, que dá a impressão de estar se especializando em inovações linguísticas, a responsabilidade por sua seleção, treinamento e colocação em atividade é do governo. Não se trata de pretender crucificar os governadores pelos crimes agora revelados, mas de insistir que o que precisa efetivamente ser modificada não é a polícia, nem a estrutura dupla ou tripla, mas a mentalidade oficial a respeito do assunto.
Se os governos não priorizam a segurança pública, se não oferecem recursos para que haja organismo efetivo, se não se preocupam com a política de engajamento de pessoal, de treinamento, de capacitação, é óbvio que na ponta da corda, ali onde o policial vai agir, junto à sociedade, ocorrerão abusos, crimes, ‘boçalidades’. E, infelizmente, o que se nota na reação quanto aos fatos agora denunciados é que não há nada em relação à origem de tudo. Já se cogitam novas leis, o Congresso está interessado em endurecer as punições. Mas no capítulo da ação governamental, visando melhorar o aparato da segurança, não há qualquer sinal. Com isto, vende-se para o povo a impressão de que só passando os crimes dos PMs para a esfera civil, ou alterando a estrutura da polícia, a situação se resolverá.
Esta, porém, não é a verdade. Sem que haja uma vontade de agir, a partir dos governos estaduais, com apoio efetivo da União - que afinal não apenas conta com mais recursos, como, também, pode conseguir ajuda de organismos externos - o problema pode mudar de lugar (em vez dos PMs outros poderão ser os agressores), mas não se chegará ao cerne da questão, não se oferecerá aquilo que a coletividade exige e a que tem direito, que é segurança. Não se trata de pretender mudar o rumo das culpas, o que também não resolve o problema, mas de insistir no que é básico: se a polícia é deficiente, arbitrária, abusiva, incapaz, isto parte de uma cadeia de comando e é preciso mudar no alicerce para que se possa construir estrutura confiável e objetiva.

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