Editorial

Uma proposta dos Estados Unidos, de permitir que a Organização dos Estados Americanos (OEA) enviasse amigos para resolver potenciais ameaças à democracia em países da região, foi engavetada depois de receber uma pouco amistosa resposta de alguns membros da entidade. A proposta, uma das prioridades dos EUA na Assembléia Geral da OEA, realizada na semana passada, permitiria que a organização enviasse o que foi descrito como um grupo de amigos para ajudar estados-membros a resolver problemas internos que, se não controlados, poderiam eventualmente ameaçar a democracia do País.
  México, Peru e outros dos 34 integrantes da OEA consideraram que o plano poderia levar à indesejada interferência em assuntos internos das nações no hemisfério ocidental – uma região onde os Estados Unidos têm, historicamente, imposto sua vontade com mão-de-ferro. Acreditamos que todas as ações da OEA deveriam ser dirigidas de forma que cada país... seja responsável por tratar de seus problemas, mantendo sempre sua soberania, afirmou a respeito o ministro do Exterior do Peru, Fernando de Trazegnies Granda.
  A proposta foi devolvida ao comitê e os Estados Unidos esperam alcançar um acordo na assembléia do ano que vem. Representantes dos EUA disseram acreditar que o conceito de sua proposta tem amplo apoio, mas os detalhes precisam ser melhor trabalhados. Esperávamos plenamente que houvesse preocupação sobre a interferência em assuntos internos, afirmou Peter Romero, subsecretário de Estado em exercício para assuntos do hemisfério ocidental, numa breve entrevista. A OEA já tem autoridade para mediar crises, como golpes de Estado, afetando estados-membros. A proposta dos EUA iria permitir à OEA envolver-se antes que uma disputa interna explodisse em crise total, garantindo que um potencialmente controlável fogo num arbusto não acabasse queimando toda a floresta, disse Romero na assembléia.
  A intenção claramente percebida na proposta dos EUA é justamente a de conseguir força para intervir diretamente sobre outros países, idéia que há muito é acalentada pelos norte-americanos, mas que tem sido sempre repelida pela América Latina. Já quando Fidel Castro anunciou a adesão de Cuba ao marxismo, os Estados Unidos tentaram de todas as maneiras cooptar o continente para uma ação contra o regime da Ilha. Não poucos analistas chegam a afirmar que uma das causas de o então presidente brasileiro Jânio Quadros ter perdido pelo menos a simpatia dos vizinhos do norte foi haver apoiado Cuba, com a tese da autodeterminação dos povos. Mas, felizmente, o Brasil tem tradição mais antiga nessa questão contrária a intervenções externas. Faz parte da história a reação do marechal Floriano Peixoto, então presidente, quando, diante de distúrbios no Rio, recebeu a pergunta sobre como seria recebido o desembarque de tropas britânicas para auxiliar o governo: À bala, foi a resposta.
  Como os ingleses, que eram no começo do século o que os EUA são agora, a idéia de intervir em outros países sempre agrada aos que se consideram donos do mundo. Todavia, apesar de todas as pressões, a América Latina se mostra firme numa determinação que merece respeito. Apesar dos problemas todos, das imensas dificuldades, as nações latino-americanas ainda mantém o espírito de independência diante da pressão externa. Essa postura é tanto mais importante quando se percebem os males decorrentes da política intervencionista que as grandes potências exercitaram no mundo nos últimos séculos. A Iugoslávia está aí, quase destruída para deixar evidente como as grandes potencias resolvem os problemas dos outros. Não é receita que agrade a ninguém.

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