Editorial
Com o reajuste das tarifas telefônicas, já em vigor, e o da energia elétrica anunciado ontem a inflação brasileira, que poderia ficar por volta de 5% este ano, ensaia novos vôos. Como já aconteceu em 96, a falta de uma política mais concreta para tarifas públicas e preços controlados é um fator de incerteza que pesa negativamente no programa de estabilização da economia. Os argumentos em favor dos reajustes - e no caso da telefonia o corte de subsídios nas chamadas locais faz parte da filosofia de uma economia estável e sem protecionismo - podem ser muito fortes, mas a resultante inflacionária também é. Além disso, se a prioridade maior é a estabilidade dos preços, então salta aos olhos que aumentos abruptos e elevados nas tarifas públicas nunca deveriam ocorrer. Em último caso, poderiam acontecer em doses homeopáticas.
Infelizmente, porém, uma ambiguidade renitente complica a execução do Plano Real, que é inteligente em sua estrutura mas corre perigo se faltam políticas objetivas em sua realização. Desde o começo o governo vem falhando com os atrasos nas reformas estruturais, no programa de privatizações, nas medidas de contenção do déficit público, uma das maiores causas da balbúrdia econômica do País. Neste quadro, o destempero tarifário não ajuda em nada o esforço coletivo pela estabilização.
Sabe-se, perfeitamente, que uma economia estável se baseia, também, no realismo tarifário. Até por isso, outros planos econômicos que visavam restaurar o equilíbrio eram precedidos de um tarifaço, eliminando-se subsídios e oferecendo-se a base para que as estatais do setor pudessem suportar a nova realidade que se implantava. O Plano Real foi diferente e nisto foi sábio. O que se fez foi obrigar as estatais prestadoras de serviços essenciais, como as de energia, água e telefone, a se ajustarem e se adequarem à política de estabilidade. Como em todos os setores, nelas havia desperdício, vícios e abusos.
O projeto teve sucesso também aí. Muitas empresas realizaram um produtivo enxugamento de suas despesas e, com o aumento do poder aquisitivo da população, suas receitas cresceram. A questão é saber por que todas precisavam de um reajuste tão grande e tão urgente que veio de uma vez só. Não há qualquer notícia a respeito. O que se sabe é que o impacto sobre a inflação será grande.
O momento é ruim porque já estavam ocorrendo aumentos de preços no setor de alimentos. Poderiam ser oscilações naturais do mercado, mas com as novidades tarifárias aumentos que eram passageiros podem acabar ficando permanentes e provocar mais uma elevação nos índices da inflação. O reajuste das tarifas de energia elétrica, felizmente, é inferior ao da inflação do período. Entretanto, se essa indexação disfarçada continuar, será difícil evitar o efeito multiplicador por toda a economia. A economia brasileira ainda não se recuperou totalmente dos vícios adquiridos ao longo de anos de inflação e indexação. Se não houver maior responsabilidade oficial, neste momento, um pilar fundamental do Plano - justamente a desindexação - corre perigo.





