Editorial
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A luta da qualidade
A campanha institucional lançada pelo Sebrae para o estímulo ao consumo de produtos nacionais é válida e, sem dúvida, muito importante. Devido a uma longa história de deficiência da indústria brasileira, a idéia de que o produto importado era sempre melhor que o nacional tornou-se um conceito de aceitação tranquila. Há poucos anos, inclusive, o então presidente Fernando Collor de Mello cunhou uma frase que representava bem esta idéia, quando disse que os automóveis nacionais eram verdadeiras carroças, em comparação com os importados. Por causa dessa diferença, como uma forma de proteger a indústria nacional, estabeleceu-se uma forte taxação para os produtos importados. Todavia, essa prática, também, acabou servindo para perpetuar o problema. Protegida pelas leis, a indústria não tinha motivos para buscar melhorias. Faltava preocupação e vontade de se melhorar as coisas. O consumidor acabava sendo a grande vítima, sem condições até para reclamar ou exigir.
A abertura que começou a ocorrer, precisamente no governo Collor de Mello, quase que uma obrigação diante das transformações que vinham ocorrendo no mundo, criou uma situação muito difícil para a indústria nacional. Os produtos importados começaram a chegar com mais facilidade, com as benesses decorrentes da mudança na taxação, e, logo, se tornaram preferidos da maioria. O aumento da consciência cidadã do consumidor, protegido também por novas leis e estimulado pela grande mudança que aconteceu com o lançamento do plano de estabilização, contribuiu para que houvesse um aumento nas exigências, colocando a indústria brasileira em dificuldades para enfrentar esta nova realidade.
O resultado foi bom em um sentido, mas ruim em outro. A indústria passou a enfrentar enormes dificuldades para competir com os importados. Algumas consequências têm sido perniciosas, com indústrias fechando, o que implicou aumento no desemprego. Paralelamente, também houve problemas na própria balança comercial brasileira, com um aumento acentuado nas importações, o que resultou em déficits cada vez maiores para o País. Não faltaram os que insistiam na volta do modelo antigo, na restauração do protecionismo, no estabelecimento de impostos maiores para reduzir a atração dos importados. A luta para a desvalorização do real, igualmente, fez parte desse esforço, que, aparentemente, visava a proteger a produção nacional. Felizmente, ao lado disso, houve também a conscientização de importante parcela do setor empresarial, que - acompanhando a evolução do consumidor - passou a buscar mais qualidade na sua produção, percebendo que só assim teria como enfrentar bem a invasão dos importados.
Com a desvalorização da moeda nacional, em janeiro, o que atendeu aos reclamos internos, mas que, na verdade, refletiu apenas uma realidade, já que o real estava muito valorizado, melhorou um pouco a condição para os produtos nacionais, em sua competição com os importados. Todavia, o mais importante é a percepção da necessidade de se buscar qualidade para enfrentar a concorrência. A atual campanha que busca mostrar que o produto nacional é melhor que o importado só vai atingir seus objetivos se estiver baseada na realidade. Não se conseguirá mais enganar o consumidor nem será mais possível usar argumentos xenófobos para enfrentar o desafio externo. Na verdade, o produto nacional precisa mesmo ser bom, para recuperar o mercado. É um desafio sério, até porque a idéia sobre a qualidade melhor do importado continua bem arraigada. A indústria brasileira precisa saber competir, usar a qualidade para ocupar o lugar que deve junto ao consumidor nacional.





