Mais sacrifícios
Junho deve ser, conforme entendimento dos especialistas, o último mês do sufoco para os brasileiros. Segundo as previsões repetidas com intensidade, pelas autoridades inclusive, o segundo semestre vai marcar a retomada do crescimento ou, pelo menos, o fim da estagnação recessiva. Possivelmente por conta dessa esperança futura, as autoridades estão oferecendo, logo neste começo de mês, alguns presentes indigestos para a população. Alta nas tarifas de energia elétrica e de telefones, aumentos nos preços dos remédios, reajustes nas passagens aéreas, duras provações para a população, tudo sob a alegação da inevitabilidade dos reajustes, devido à desvalorização do real, e com a esperança mantida em relação à melhoria das coisas, tão logo comece o segundo semestre do ano. Ocorre que essa divisão é algo simbólica. Um mês depende do outro e, até como assinalou o presidente do Banco Central, nas previsões otimistas para o segundo semestre, as coisas vão melhorar se, entre tantos fatores, a inflação continuar baixa.
Ora, as altas de preços, notadamente das tarifas públicas, pesam inexoravelmente sobre o custo de vida e pressionam a inflação. O mais grave, ainda, é notar que os reajustes das tarifas foi estabelecido em percentual acima da inflação. Claro, não existe mais indexação, mas é certo que quando um fator de tal modo preponderante para a vida, como a energia elétrica, sofre um reajuste acima até da inflação oficial, tem-se um efeito terrível sobre o bolso da população, que vai gastar mais sem ganhar mais. Também a questão dos remédios é assustadora. As altas autorizadas estão muito acima da desvalorização da própria moeda, de tal modo que não se consegue nem sequer entender a desculpa apresentada pelos responsáveis, segundo os quais os medicamentos, com componentes importados, sofreram o impacto da mudança cambial de janeiro. Por qualquer lado que se observe, o consumidor, o povo em geral, fica em verdadeira situação de desamparo.
No final, o que se tem é o lançamento de novas dificuldades para o povo, com todas as suas implicações. Mais grave ainda é perceber que, diante da situação toda, as possibilidades são realmente negativas. O cidadão, não apenas pela consciência adquirida ao longo dos últimos anos, mas devido à falta de alternativas, vai ter de estabelecer mais sacrifícios a fim de enfrentar os problemas colocados pelo governo. Vai restringir mais ainda o consumo da energia elétrica, vai racionalizar a utilização do telefone, seguramente reduzirá viagens e, na faixa mais carente e mais necessitada, terá de abdicar até de seus medicamentos, apesar de toda a necessidade. Pessoas do povo, notadamente aposentados - o que os coloca, naturalmente, como consumidores quase obrigatórios de remédios -, já indicaram o que pretendem fazer diante da nova majoração: não vão comprar sua medicina, por falta mesmo de recursos.
Possivelmente, em função de tudo isso, e apesar de tudo, a inflação talvez se mantenha no baixo nível dos últimos meses. Também é provável que, se não acontecer nenhuma crise lá fora, o Banco Central persista na política de redução dos juros, que é a única coisa satisfatória que vem fazendo ultimamente. É possível que, com tudo isso, haja mesmo a mudança que tanto se antecipa e as coisas talvez melhorem no começo do próximo mês (e semestre). Entretanto, é mais que óbvio que os sacrifícios impostos ao povo estão atingindo o limite, sendo adequado reclamar das autoridades que se empenhem em fazer sua parte, o que, infelizmente, vem tardando. O mais grave é perceber que sem a contrapartida oficial, sem medidas sérias, sem uma política objetiva do governo, todo o sacrifício do povo terá sido inútil.

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