Guerra sem limites
Os últimos ataques perpetrados pelos aviões da Otan contra o território da Iugoslávia serviram para acabar com a farsa da chamada ‘‘guerra inteligente’’, com mísseis dirigidos por computador que atingiriam apenas alvos considerados de interesse bélico. Após mais de dois meses de bombardeio, a organização responsável pelos ataques deixou de apresentar alegações sobre erros na ação bélica, que resultaram em um número elevado de vítimas civis. A Otan mudou aos poucos o tom - da lamentação inicial a um cinismo mais conforme com a política agressiva, culminando com o reconhecimento, no final de semana, do ataque contra uma ponte em que se encontravam civis, sem apresentar qualquer desculpa pelo ocorrido. O que se tem, afinal, é o fim da farsa, a revelação de que esta, como qualquer outra guerra, não tem freios ou ética e o objetivo fundamental dos que atacam é o de destruir o que esteja à frente, sejam edificações com finalidades bélicas ou residências, convertendo-se os civis em vítimas aceitáveis de uma ação bárbara.
Nem mesmo a reação contra os bombardeios, cada vez mais negativa das populações dos países membros da Otan ou de outras nações, parece sensibilizar os responsáveis pelos ataques. O que se está realizando na Iugoslávia hoje chega a ser pior do que os ataques efetuados contra o Iraque, há algum tempo, também com o anunciado uso de ‘‘mísseis inteligentes’’. A blitz contra os iraquianos não durou tanto, nem atingiu o grau de destruição que se está vendo agora em plena Europa. E é certo que o motivo alegado para os ataques - a defesa dos albaneses étnicos que viviam em Kosovo, contra a alegada ação de genocídio dos sérvios da Iugoslávia - não se mostra muito convincente, até porque a tragédia dos kosovares se ampliou a partir dos bombardeios.
A guerra não tem sentido ou validade para qualquer tipo de padrão civilizado. Por vezes, há certos fatores que podem, em certo sentido, justificar o uso da força contra um país ou um povo, como ocorreu no Golfo Pérsico: o governo Saddam Hussein agiu, efetivamente, de modo ilegal e abusivo ao invadir e anexar um país independente, no caso o Kuwait. Não cedeu às pressões diplomáticas, de tal modo que o ataque feito contra seu país aparentava uma justificativa, inclusive porque se tratava de defender um povo soberano, invadido por um inimigo. A ação era de fato justificável e mobilizou a ONU. Mas acabou, efetivamente, quando se restabeleceu a independência do Kuwait. O Iraque passou a ser vigiado, alvo de ataques, impedido de negociar com as demais nações do mundo até deixar de lado suas pretensões hegemônicas sobre os vizinhos.
O que ocorre na Iugoslávia é diferente. Existem provas segundo as quais os sérvios agem de modo verdadeiramente criminoso contra os albaneses étnicos de Kosovo. As denúncias de genocídio são tão graves quanto as feitas em outras ocasiões, durante a secessão da antiga República Iugoslava, que se converteu, agora, em uma série de países. E é certo que a consciência mundial não pode aceitar passivamente esse tipo de atitude. Todavia, também não se pode deixar de notar que esta ação bélica da Otan tem pouca ou nenhuma eficácia na tentativa de conter o massacre dos kosovares. As vítimas que se pretendia defender estão, agora, em situação igual ou pior. E as perspectivas de uma solução capaz de garantir aos perseguidos o direito à vida são cada vez mais tênues, principalmente porque não há indícios de que os belicistas estejam pensando em sustar os ataques, voltando à civilidade das negociações. Os guerreiros assumiram o controle e, ao que parece, só vão parar de jogar suas bombas quando acabarem de vez com a Iugoslávia e com os civis iugoslavos.

mockup