Editorial
Sucesso sem apoio
Otimista, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, anunciou durante almoço com correspondentes estrangeiros que o Brasil está no fim do processo recessivo, antecipando que a recuperação vai começar a partir do segundo semestre. Apenas colocou uma condição: a persistência na queda da inflação, o que permitiria que os juros, igualmente, continuassem a baixar. Fraga foi enfático ao afirmar que a inflação não deve atingir a alta prevista para este ano, tanto pelo governo quanto pelo FMI, que estaria pela casa dos 17%. Não quis fazer previsões, concordando, porém, com as projeções que atualmente sinalizam para números bem mais baixos.
O otimismo do presidente do BC é importante. É certo que a postura do sr. Fraga se baseia em fatos reais, bem sensíveis. Os números mostram uma situação diferente da que vinha sendo antecipada pelos especialistas, notadamente após a desvalorização do real, com todas as suas consequências. As previsões relativas a uma inflação elevada (para os padrões atuais, do pós-real) não estão se confirmando, assim como também sente-se que a retração da economia como um todo, com queda no PIB este ano, também parece não ser de molde a atingir os patamares antecipados. Entretanto, é possível concluir que essa situação, diferente do quadro negativo e assustador desenhado pelas autoridades e pelos gestores do FMI, decorre menos das ações do governo e de certos setores da produção e mais de uma reação consciente da população.
Com efeito, se a inflação não subiu como se esperava (e temia), isso não aconteceu por causa de medidas oficiais, de algum plano bem urdido pelas autoridades, mas da atuação do cidadão, da pressão do consumidor, que em muitos casos, também é bom perceber, não tem muitas opções. O brasileiro, de modo geral, está reagindo melhor contra a especulação altista não apenas por ter ampliado sua consciência de cidadania, mas premido pela situação real. O assalariado não tem tido reajustes nem sequer compatíveis com a alta de preços. E o desemprego de muitos, unido ao temor de outros, também inibe qualquer tipo de atitude irresponsável diante da crise.
Não se pode esquecer que, apesar das manifestadas expectativas otimistas do presidente do BC, certas e fortes dificuldades estão para ser colocadas frente ao povo neste mês de junho. Altas nas tarifas de energia elétrica e de telefonia, que devem atingir o País todo, e o reajuste nas tarifas do pedágio, no Estado, vão sem dúvida pressionar de novo a inflação. A alegação para os reajustes das tarifas públicas é a esperada: trata-se de uma correção devido, ainda, aos efeitos da desvalorização da moeda. Mas os percentuais que se anunciam superam os totais da inflação acumulada. E isto pressiona demais os preços. Quanto às tarifas do pedágio, igualmente atingem a quase tudo, com efeito quase similar ao dos reajustes nos preços dos combustíveis.
A população vem reagindo às dificuldades com firmeza. Isso é o que está produzindo um resultado diferente do projetado. E é certo que, diante dos problemas já anunciados para o próximo mês, será necessária, uma vez mais, a continuação da luta do cidadão que, hoje, nem sequer pensa tanto em conter a inflação, mas em sobreviver diante dos obstáculos que vão sendo antepostos pelo governo e, também, por alguns empresários sem percepção da realidade. A impressão é a de que o Brasil, de fato, está conseguindo superar com firmeza os desafios das crises com que se defronta. Lamentável é que isso só esteja acontecendo por causa da luta de um segmento - o trabalhador, o desempregado, o povo humilde. Se o governo ajudasse, não criando mais dificuldades, ainda, a situação poderia ser bem melhor.





