Investigação necessária
A atitude do bloco governista de vereadores da Câmara Municipal de São Paulo, que autorizou a prorrogação da CPI da máfia da propina por apenas três dias, o que, na prática, significa o fim da investigação, constitui mais um fator negativo em relação aos políticos, sendo bem indicativa dos motivos pelos quais o povo cada vez confia menos neles. As denúncias sobre a atuação da chamada máfia da propina, em São Paulo, chegaram a causar espanto em um país já, infelizmente, acostumado com a corrupção. Pelo que se ficou sabendo, em função das investigações, a capital paulista estava quase que submetida a um loteamento criminoso, com os políticos (especialmente vereadores) transformando a cidade em um feudo que exploravam de todos os modos.
Se é certo que a grande ameaça à civilização mundial é a do crime organizado, é igualmente correto considerar que o maior perigo para a democracia vem não dos pretensos líderes totalitários, mas de políticos que fazem da corrupção um meio natural de vida. Quando políticos transformam mandatos populares em propriedade privada, quando fazem dos legislativos cabides de emprego para parentes e amigos, quando desrespeitam o voto por meio de negociatas, quando pretendem se colocar acima das leis, inclusive por meio da defesa corporativa, estão solapando, do modo mais grave, as próprias bases da democracia representativa.
A atuação corporativa dos políticos constitui, sem dúvida, um dos maiores absurdos da vida pública. O deputado federal ou estadual, assim como o vereador, não tem compromissos com seus companheiros de Casa Legislativa. Cada político eleito tem, fundamentalmente, compromissos com o eleitorado. Quando o povo elege alguém não está repassando o poder que é seu, conforme diz a Constituição, mas apenas escolhendo alguém para representá-lo. Deste modo, o político não é dono do mandato, apenas um representante. Ao se converter em vereador, deputado estadual, federal ou senador (o mesmo, naturalmente, cabe aos eleitos para cargos executivos) torna-se membro de uma casa legislativa, mas não faz parte de uma corporação, como a de outros profissionais. O vereador que procura proteger o companheiro de bancada ou de câmara, está falhando com seu mandato e com o eleitor que o elegeu. Adicionalmente, está ajudando a tornar pior a imagem do Poder e dos políticos junto ao povo.
As denúncias levantadas contra os vereadores e outros políticos, em São Paulo, não podem cair no vazio. A população espera, naturalmente, que os órgãos da Justiça ajam de modo mais eficiente, levantando toda a sujeira já denunciada, punindo os responsáveis, independentemente do cargo que exerçam. Paralelamente, é de se lamentar este tipo de atuação, dos que querem acabar com a investigação, que evidencia inclusive uma falta de respeito total para com o povo, que é, ou deveria ser, a preocupação fundamental dos políticos. É uma atitude que mancha a imagem da Câmara, que nivela por baixo os vereadores, que justifica as críticas mais candentes aos que se dedicam à política.
Sabe-se que uma denúncia não é uma prova. Quer dizer, quando se acusa alguém de agir de modo ilegal, não significa que o acusado seja de fato criminoso. Os vereadores de São Paulo que foram acusados na máfia da propinia não devem ser considerados culpados sem uma investigação e um processo. Entretanto, até porque ocupam um cargo público de confiança do povo, é certo que quando são acusados devem ter sua atuação total e plenamente investigada. É um imperativo do qual não se pode fugir, sob pena de se torpedear o sentido da representação e instaurar a corrupção como prática e a impunidade como coisa normal.

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