Grampos que agitam
As novas denúncias contra o governo, baseadas em escuta telefônica na qual o presidente da República e outros membros do primeiro escalão tecem considerações sobre o leilão de privatização do Sistema Telebrás, provocaram as naturais ondas. Líderes dos partidos de oposição insistem em denúncias contra Fernando Henrique Cardoso, falando-se até em pedido de instauração de um processo de impeachment. Por seu turno, o ex-presidente e agora governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB), defendeu a investigação das denúncias pelo Congresso Nacional e pelo Ministério Público. ‘‘Se o Congresso Nacional nada fizer, nós teremos muito em breve uma crise institucional’’, sustentou. Desta vez, porém, o presidente parece ter conseguido apoio mais firme de seus aliados políticos, o que não vem acontecendo com muita frequência. A base governista está unida, conforme assinala o líder do governo na Câmara, Arnaldo Madeira (PSDB-SP), o que foi demonstrado na articulação dos líderes, que não titubearam em sair em defesa de FHC, a maioria usando o mesmo discurso segundo o qual a denúncia não passa de ‘prato requentado’.
Não há dúvida que a revelação de conversas entre o presidente Fernando Henrique Cardoso e alguns membros do governo chega a chocar, até pelo uso de certos termos que não se espera ouvir por parte deles. Naturalmente, é necessário lembrar que as conversas eram privadas, os interlocutores não tinham nenhuma idéia de que havia alguém ouvindo - e gravando - o que diziam. Estavam desarmados, confiando na privacidade. Mas, na verdade, os que respondem pelos destinos do País precisam é manter a compostura em qualquer circunstância, mesmo pensando estar longe dos holofotes ou dos microfones.
Descartando, contudo, a falta de compostura de alguns dos interlocutores, o que sobra parece não ser tão forte quanto alguns setores pretendem. Segundo os diálogos, o presidente Fernando Henrique Cardoso teria autorizado o uso de seu nome - e de seu prestígio - em defesa de determinado grupo que participaria do leilão de privatização do sistema Telebrás. Se se tratasse de licitação e se o grupo que o presidente, em tese, pretendia privilegiar, acabasse ganhando, sem dúvida haveria sérios motivos para duvidar da licitude do processo. Acontece que era um leilão. A eventual intervenção do presidente, embora descabida e sem dúvida inoportuna, pode ter servido para melhorar os lances. Ademais, quem ganhou não foi o grupo que teria merecido o eventual apoio verbal de FHC. O que se tem, então, é um exercício de discussão sobre a forma pouco elevada usada na conversação por alguns auxiliares do presidente. Ofensas a ministros, piadinhas sem graça envolvendo o dinheiro da privatização, tais são realmente coisas estúpidas.
Há a necessidade de se dar a dimensão correta ao episódio. É útil, inclusive, discutir a ética da denúncia em si. Em países civilizados, nenhuma prova é aceita em juízo se obtida por meios ilegais. Mas, seguramente, os interessados em agitar o ambiente vão ponderar que o grampo, mesmo ilegal, revela um quadro assustador. Sem dúvida, se um grampo telefônico revelar um crime, não se poderá desconhecer a questão. Mesmo assim, serão necessárias provas reais, antes de se provocar a agitação que tomou conta de alguns meios ante os diálogos reproduzidos por um jornal paulista.
O presidente Fernando Henrique Cardoso, vítima já de episódios semelhantes, além de reclamar deste constante vazamento, que também pega mal para seu governo, precisa ser um pouco mais rigoroso com seus auxiliares. No mínimo, deve exigir que ajam, em qualquer lugar, mesmo ao telefone, com a elevação que se reclama de seus cargos.

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