Ameaça do narcotráfico
A principal testemunha da CPI do Narcotráfico, o administrador de empresas Guilherme Duque Estrada, anunciou que pretende pedir asilo político ao governo dos Estados Unidos porque vários de seus parentes no Rio de Janeiro e em Rio Branco, no Acre, foram ameaçados de morte depois que prestou depoimento acusando o ex-governador daquele Estado, Orleir Cameli, e o deputado Hildebrando Pascoal de estarem ligados ao narcotráfico. ‘‘Não tenho condições de viver mais neste País com estas pessoas me ameaçando’’, disse. Aos 39 anos, Guilherme está há quatro anos vivendo no anonimato. Ele constituiu nova família e não revela onde mora, atualmente, para evitar novos atentados. A testemunha guarda no rosto as marcas de tiros que levou em um dos quatro atentados, que ele diz terem sido praticados por grupos de extermínio do Acre. Nem com a proteção de seis policiais federais que o acompanham desde a semana passada, depois que prestou depoimento à CPI do Narcotráfico, Guilherme se sente totalmente seguro no Brasil. Os policiais que o protegem andam todos de coletes à prova de bala e com armas de grosso calibre. ‘‘O governo brasileiro não vai me proteger a vida toda’’, disse. ‘‘O ideal é que todos os culpados sejam processados e presos.’’
Ao mesmo tempo que prega a prisão das pessoas envolvidas com os grupos de extermínio e com o narcotráfico no Acre, Guilherme afirma que tem pouca esperança em iniciativas que dependam do Ministério Público. Na última quinta-feira, o procurador Luiz Francisco se disse indignado com a falta de iniciativa do procurador-Geral da República, Geraldo Brindeiro, em não processar Orleir e Hildebrando. Guilherme afirmou que o procurador, dos nove inquéritos que recebeu do Ministério Público estadual, só apresentou duas denúncias. ‘‘O Brindeiro poderia ter denunciado os envolvidos há vários anos.’’ A testemunha assinalou que pretende morar nos Estados Unidos e que só pretende voltar ao Brasil quando todas as pessoas envolvidas com o crime organizado no Acre estiverem presas. Ele afirmou que fica triste ao saber que está deixando o País por não se sentir seguro em denunciar pessoas envolvidas em crimes. ‘‘É o sentimento da impunidade em um País que não protege seus cidadãos’’, completou.
A situação daquele brasileiro é bem indicativa da realidade em que se vive diante do crescimento dos cartéis da droga, que contam com um poder cada vez maior, aqui como no mundo. O narcotráfico, importa repetir, constitui hoje o mais candente desafio à sociedade civilizada. Movimentando milhões de dólares e usando, também, sem qualquer temor, de meios violentos para enfrentar seus adversários, o tráfico coloca em risco todo o arcabouço da civilização. A situação de Guilherme Duque Estrada é bem indicativa. Ameaçado, ele prestou depoimento. Mas não se sente seguro em viver no Brasil. Tem a família ameaçada. Vai fugir. Diante disso, fica sempre mais difícil encontrar quem tenha coragem para apresentar fatos, formular queixas ou denunciar crimes. E quando o tráfico consegue até se imiscuir em escalões militares, usando aviões da FAB para seus negócios, o sentimento é o de que se está face a um organismo que não tem qualquer limite em sua ação.
O Brasil, como o mundo, precisa perceber a magnitude do problema. O narcotráfico é, hoje, o mais grave dos problemas de segurança que o planeta enfrenta. Apesar, porém, de tantas denúncias e das muitas evidências, não há, ainda, uma ação mais ampla e mundial para enfrentar as teias dos cartéis que se encontram por toda parte. O temor da testemunha, que já mudou de identidade e que pretende fugir do País, é por si indicativo. Se não se pode nem sequer garantir a segurança de quem denuncia o tráfico, será ilusório esperar que se possa dar fim a esse crime.

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