Combate à corrupção
Nunca se viu tantas denúncias de corrupção nos mais diferentes escalões da vida pública brasileira como nos últimos tempos. Tudo começou com a redemocratização. Depois de 21 anos de falta de liberdade, o Brasil retomou seu destino e começaram a surgir os fatos, não apenas em relação ao passado, mas também os detectados na nova fase da vida brasileira, envolvendo principalmente legisladores e seus apaniguados. Mas sobrou também para responsáveis por outros setores, sendo que o ápice do processo, sem dúvida, ocorreu quando um presidente eleito e em exercício, o xará do atual, Fernando Collor de Mello, foi sumariamente defenestrado do poder, exatamente por denúncias de corrupção.
Se aquele foi o auge, é certo que o processo não terminou, até porque, infelizmente, a corrupção, além de fazer parte quase que da cultura humana, é uma das sequelas do processo totalitário, um vício que, como tal, é difícil de ser superado. Reclama permanente atenção e vigilância, o que a imprensa livre tem feito. Atualmente, estão em andamento investigações sobre o Banco Central, sobre o Judiciário, sobre a administração municipal de São Paulo, entre outros. Fatos escabrosos têm sido divulgados, provocando repulsa e até medo. A impressão é a de que a corrupção é invencível, descobre-se um foco, pensa-se que as coisas foram resolvidas e, de repente, surge outro. Pelo bem da sociedade civilizada, é importante não aceitar que ela tenha este poder de invencibilidade. Mas é certo que esta mazela está de tal modo entranhada nos procedimentos da vida, em especial nos governos, que a conclusão natural é a de que só com extrema disposição e vontade é que será derrotada.
Acontece que a vitória efetiva contra esta maneira sórdida de explorar e roubar a população só pode acontecer a partir de uma consciência cívica, de um despertar da percepção de cidadania, processo que, felizmente, vem se verificando no país em anos recentes. A inflação exacerbada, inegavelmente um câncer social de alcance tremendo, provocou, entre outras consequências, uma fissura nos valores morais da sociedade. No Brasil, a partir de determinado momento, ‘levar vantagem’ passou a ser quase que um imperativo de vida. Era preciso ser ‘esperto’, ganhar de qualquer modo. Por muitos anos, o País se tornou a nação dos vivaldinos, cada um querendo levar mais vantagem que os outros. Em tal quadro, a corrupção floresce naturalmente.
Mais que o fim da inflação, foram o despertar da cidadania e o surgimento de valores mais firmes que alteraram efetivamente a vida brasileira. E é esta realidade que pode, mais do que qualquer outra coisa, mudar o panorama. Os brasileiros começaram a perceber, nesta ciranda vergonhosa, que quem leva vantagem são os ladrões e safados, os que exploram o país e o povo sem nenhum padrão moral. Para contê-los, é vital que haja uma reação da sociedade como um todo, como se consegue perceber, apesar de ainda haver uma grande cota de abusos entre nós. Na medida mesmo em que o cidadão começa a rejeitar as falcatruas, a sentir nojo da corrupção, a exigir respeito e dignidade dos que governam em seu nome, todo este quadro pode mudar.
A exigência de punições para os responsáveis, a fiscalização cada vez mais firme da população - que tem sido o principal agente na luta contra a especulação inflacionária, entre outras coisas - constituem os fatores básicos para alterar toda esta situação. É um momento histórico que exige a potencialização da cidadania, através de uma postura ética, firme e definitiva. Sem dúvida, o caminho único para erradicar a corrupção entre nós.

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