Editorial
Argentina, a bola da vez?
Para os que já julgavam terminados os choques das crises econômicas, o surgimento de problemas financeiros na Argentina serve como um eficiente alerta. A realidade mundial, hoje, é uma só: não há mais aquele clima de tranquilidade e as crises não são apenas uma ocorrência esporádica e inesperada, como tufões ou terremotos que, vez ou outra, atingem uma certa região. Neste mundo globalizado, as crises fazem parte da vida diária e o ataque dos especuladores mundiais representa uma certeza constante. Ante as primeiras notícias sobre problemas econômicos no vizinho país, já ressurgiu o termo, indicando que a Argentina pode ser a bola da vez. Trata-se de um jargão conhecido dos jogadores de sinuca e que tem servido como uma luva para a especulação internacional.
Diante dessa situação, a reação inevitável é a de se tentar antecipar os rumos, prever efeitos e preparar defesas, algo que os antigos definiriam usando o velho ditado que diz que quando se vê as barbas do vizinho pegando fogo, põe-se as próprias de molho. Ainda que pareça uma idéia cínica, é a mais presente diante do temor que uma nova crise desperta, no momento em que o Brasil parece estar se recuperando dos últimos sobressaltos, com os juros baixando aos níveis de agosto do ano passado.
Analistas econômicos assinalam que os problemas financeiros argentinos afetarão de forma limitada a recuperação econômica do Brasil - que saiu fortalecido depois das transformações feitas no seu sistema monetário - e não interromperão os investimentos estrangeiros na América Latina. Os rumores sobre a possível desvalorização do peso argentino e suas dificuldades de fazer frente à meta fiscal determinada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) não geraram uma nova crise de confiança na região inteira porque os investidores conhecem cada vez melhor os diferentes países, seus problemas e sua capacidade de reação.
Entretanto, a instabilidade argentina, que surgiu com os rumores de desvalorização da moeda, foi sentida no Brasil: a Bolsa de Valores de São Paulo caiu 1,21% e os títulos da dívida brasileira no exterior (C-Bonds) registraram uma baixa de 2,9%. Para os entendidos, o maior risco é que a crise argentina faça subir o valor do dólar em relação à moeda brasileira e obrigue nosso Banco Central a elevar as taxas de juros, o que, porém, não parece ser o perigo no momento.
Os problemas econômicos da Argentina, no entendimento de importantes economistas, se agravaram quando o Brasil decidiu, em janeiro, adotar a livre flutuação do real em relação ao dólar. Os preços dos produtos brasileiros tornaram-se muito mais competitivos e a necessidade de reduzir as importações afetou enormemente a Argentina, que destina um terço de suas exportações ao Brasil. A produção industrial argentina caiu 10% no primeiro trimestre do ano e a automobilística foi reduzida à metade. O impacto provocado no vizinho país pela desvalorização do real tornou necessárias várias reuniões de equipes econômicas de ambos os países para sanar estes efeitos e discutir medidas compensatórias para a Argentina.
Ademais, como assinalam alguns estudiosos, o futuro da Argentina depende em parte do crescimento do Brasil, já que se os índices econômicos brasileiros continuarem se recuperando, como nas últimas semanas, o vizinho país vai se beneficiar porque o consumo interno brasileiro aumentará e, com ele, as importações. A situação é curiosa, na medida em que, se o Brasil sofrer os efeitos das dificuldades atuais da Argentina, os vizinhos terão ainda mais problemas. É uma gangorra delicada, que exige cada vez mais cuidado e enorme sensibilidade por parte das autoridades econômicas.





