As cenas da violência da Polícia Militar paulista, mostradas pela TV para o Brasil e o mundo, revelam uma face não muito oculta do sistema policial brasileiro. Esta face exibe, tristemente, o arbítrio, a violência e o completo despreparo de gente mal formada e desprovida de equilíbrio mental e emocional para as funções que deveriam exercer. Felizmente, não são a maioria, mas o número desses maus policiais é grande e inaceitável numa sociedade civilizada. As cenas devem mobilizar a população e as autoridades para que se faça o saneamento nacional de nossa polícia. Os governos dos Estados - responsáveis constitucionais pela segurança - e da União têm a obrigação de empreender todos os esforços para prover a Nação de uma polícia digna e sã.
O Brasil enfrenta há anos uma situação caótica em matéria de segurança pública. Os registros de violência policial são incontáveis e os fatos conhecidos não chegam nem perto da realidade. É grande o número de vítimas que, por medo ou descrédito, simplesmente não denunciam mais nada. E a sequência de impunidade e reincidências acaba dando razão aos que preferem calar-se. Forma-se aí o ciclo vicioso que realimenta a truculência dos maus policiais. Em pouco tempo a lei da selva começa a parecer natural.
A alegada ignorância dos governantes - como ocorre, de forma patética, agora em São Paulo - é indesculpável. Se o governador de São Paulo não sabe o que a sua polícia faz, se o seu secretário de Segurança também desconhece o que está se passando e se os próprios comandantes não se sentem compelidos a informar seus superiores, então o que se tem é o desgoverno e o terror. Não é para isso que a população paga impostos ao Estado.
A mais frequente alegação que os governantes nos fazem é conhecida de todos: a arrecadação é insuficiente e o governo não tem dinheiro. Não há recursos para pagar salários melhores - que poderiam elevar a qualidade do pessoal - e o que sobra mal dá para o treinamento especializado, para o armamento, para o equipamento. É verdade. Mas é também verdade que os governantes são escolhidos para produzir soluções, e não para dar de ombros diante do caos. E também é verdade que jamais haverá recursos suficientes para tudo quanto se precisa fazer, mesmo se um dia eles forem fartos.
Governantes são eleitos para elegerem prioridades. E certas obrigações, definidas em lei, têm de estar sempre em primeiro lugar. São elas o atendimento à saúde, a manutenção da rede de ensino e a prestação do serviço de segurança pública, para ficarmos somente com as mais elementares. De todas, a última é a mais importante. Pois a iniciativa privada pode até ajudar no ensino e na saúde, mas a segurança é atribuição exclusiva do Estado.
A Constituição não prevê desculpas. Incumbe aos governantes direcionar os recursos necessários para que a população tenha uma polícia eficiente, capaz e confiável. No Paraná, policiais civis deflagram neste momento uma greve salarial e a situação da PM estadual não é melhor que a dos civis. Paga-se mal aos policiais aqui e em todo o País. Com isto já se faz uma seleção negativa de pessoal e a resultante final é uma polícia disforme, em que os competentes e honestos têm de conviver com os incompetentes e desonestos, com boçais como esse ‘Rambo’ e seu bando.
O que dizer, porém, da autoridade que contrata esse tipo de gente para a segurança pública? Punir soldados, oficiais, prendê-los, expulsá-los, mudar o sistema para seu julgamento, tudo isto é necessário, mas superficial. É óbvio que os responsáveis pela violência - qualquer violência e em qualquer parte do País - devem ser punidos, em São Paulo, no sul do Pará ou em Ibiporã. Mas nossa realidade nunca vai mudar se nossos governantes nada mais puderem fazer do que pedir desculpas pela barbárie cometida.

mockup