Editorial
Nossos velhos, nossos mortos
Nos Estados Unidos, existe uma forte indústria e um florescente comércio voltados para os idosos e os aposentados. Trata-se de uma faixa que está crescendo a cada ano e que tem alto poder aquisitivo. Já no Brasil, na Argentina, o objetivo inconfessado dos governos é o de dificultar cada vez mais a situação desse importante contingente populacional. O governo federal brasileiro, por meio de uma regulamentação absurda, simplesmente modificou emenda aprovada pelo Congresso, criando mais dificuldades para a concessão de aposentadoria, vinculando contribuição à idade, o que não fazia parte do espírito da mudança promulgada pelo Legislativo. Na Argentina, atendendo, segundo se informa, a novos acordos com o FMI, pretendem reduzir o mínimo que se paga ao aposentado. Atualmente, o mínimo ali é de US$ 200 (bem superior ao brasileiro), mas a alteração que se anuncia vai reduzi-lo para US$ 122. Lá como cá, a intenção é reduzir déficits que se avolumam e melhorar, assim, os respectivos caixas.
Não há qualquer dúvida sobre a necessidade de redução do déficit público, de mudanças que possibilitem a retomada do crescimento. Ocorre, pelo que se observa, que ponderável parcela dos esforços que se anunciam no sentido de mudar a situação atingem os mais carentes, os que já são há muito prejudicados. A falta de respeito aos idosos e aposentados é assustadora e dolorosa. A impressão é que o trabalhador é tido como uma peça sem qualquer valor, sugado ao longo de anos de trabalho e que, quando chega ao fim da vida, deve ser descartado, sem qualquer pudor.
Apesar de tantos percalços, o Brasil está vendo aumentar sua população idosa. Não é mais o país dos jovens e, nos próximos 20 anos, vai ter uma população enorme na faixa acima dos 60 anos. É certo que esta maior perspectiva de vida deve provocar mudanças também no que tange às idéias de aposentadoria. O sistema previdenciário oficial realmente poderá ser exaurido diante da perspectiva de pagar aposentadorias por mais tempo. Entretanto, a solução não pode ser buscada por meio de truques ilegais, como os que o governo ensaia, nem por redução nos benefícios daqueles que já ganham pouco, um pagamento que é insuficiente para garantir um fim de vida pelo menos digno. Não se verá, sob tal sistema, no Brasil ou na Argentina, aposentados como os norte-americanos, por exemplo.
A constatação disso, porém, além de ser deprimente para as vítimas do sistema, deveria levar os governantes a uma revisão consciente. Sabe-se, perfeitamente, que o imenso déficit da previdência brasileira não decorre da situação dos aposentados da iniciativa privada, a maior parte dos quais recebe o mínimo (com descontos). O grande buraco é provocado pelas aposentadorias especiais do serviço público, pelos marajás que se sustentam graças a interpretações legais que, em seus casos, são bem mais favoráveis do que as que se fazem para os infelizes trabalhadores que querem se aposentar. Sem citar os abusos e fraudes que continuam a ocorrer, sem solução.
Tal estado de coisas desanima e assusta os brasileiros que não conseguem sobreviver trabalhando - até porque está difícil conseguir emprego -, diante dos salários que não são suficientes para garantir uma vida digna, e que, quando depois de tudo vão se aposentar, deparam com dificuldades e com um ganho ainda mais irrisório. O desrespeito ao trabalho se estende à aposentadoria. O preconceito contra os idosos se acentua diante dos que buscam, depois de contribuir a vida toda, uma recompensa justa. É uma situação lamentável que deve ser mudada em respeito aos que tudo deram em seu trabalho pelo País.





