Editorial
Por um mundo sem fome
A FAO, organismo das Nações Unidas que cuida dos problemas da agricultura e da alimentação, vai lançar em breve uma campanha mundial para que a juventude se comprometa na luta contra a fome, no Dia Mundial da Alimentação - comemorado em todo o mundo desde 1981 -, que se realizará em 15 de outubro. A campanha, que prosseguirá até dezembro, terá seu momento culminante em 4 de dezembro, com um show na Jamaica a ser transmitido para todo o planeta. O compromisso da juventude nessa tarefa facilitaria o objetivo estabelecido pela cúpula mundial da alimentação em novembro de 1996: reduzir à metade, em 2015, o nível atual de pessoas - 800 milhões - que passam fome. Os jovens - mais de 1 bilhão no mundo inteiro - podem contribuir de maneira significativa para conseguir alimentos para todos se souberem canalizar sua energia. Podem impulsionar de maneira poderosa a redução e, quem sabe, a eliminação da fome e da desnutrição, segundo a FAO.
É desnecessário enfatizar a importância desse esforço. A fome constitui um problema real que acompanha a humanidade através dos tempos. A FAO tem realizado um trabalho importante na mobilização e, principalmente, no esforço destinado a produzir soluções para a fome. Sem dúvida, o objetivo estabelecido em novembro de 1996 pela cúpula mundial, o de reduzir substancialmente a fome no mundo, até o ano 2015, parece plenamente factível. Todavia, quando se observa mais profundamente essa meta, vai-se perceber que ela representa um certo fatalismo por parte do organismo mundial e de quantos se envolvam na questão. De fato, quando se projeta um programa para reduzir à metade o total dos que passam fome, em um prazo de 20 anos, está-se, automaticamente, aceitando que 400 milhões de seres humanos continuem a ser vítimas da miséria mais terrível.
Objetivamente, pode-se considerar que os responsáveis pela campanha tentem agir de modo realístico em face da situação mundial. Percebem e entendem que vencer a fome no mundo é tarefa hercúlea. Todavia, essa visão traz em si um tipo de comodismo que não deveria ser aceitável pela consciência mundial. É certo e sabido que são imensas as dificuldades para se garantir alimentação a todos, principalmente pela dimensão da população humana. Nos próximos anos, a expectativa é que se supere a marca de 6 bilhões de pessoas no mundo. Diante disso, os 400 milhões que estão programados para continuar com fome, em 2015, representam um percentual reduzido. Mas é certo que ainda assim é doloroso perceber que o mundo aceita, sem restrições, esse tipo de condenação a uma parcela da humanidade que, hoje, representa mais do dobro da população do Brasil.
O mais grave, nesse quadro, é sentir que é possível ir além. O que falta ao mundo é a vontade de enfrentar e resolver o problema. Ainda há fronteiras a conquistar para a produção de alimentos. É o caso do Brasil, que tem área e capacidade para triplicar suas colheitas. Há técnicas que podem representar mais produtividade, aqui e lá fora. Há meios para garantir a todos alimentação capaz de garantir vida, e vida com qualidade. É uma questão de mobilizar não só a juventude, mas o mundo, para conseguir ir além e atingir o ideal - um mundo sem fome.





