Agressão inaceitável
Em vários pontos do mundo dito civilizado têm se repetido manifestações de protesto contra a ação desenvolvida pela Otan, na Iugoslávia. Atitude contestada desde o início, inclusive por não ter tido a prévia autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas, os bombardeios da Otan contra aquele país provocam, a cada dia, maiores críticas. Os erros dos chamados ‘mísseis inteligentes’, que estão matando e ferindo civis, ampliam o repúdio a um tipo de ação que não chega sequer a se justificar pelo motivo apontado. Com efeito, a organização de defesa européia iniciou os bombardeios como um meio, segundo alegou, para acabar com o genocídio que os sérvios vinham cometendo contra as minorias étnicas albanesas de Kosovo. O objetivo era forçar o governo de Belgrado a mudar a atitude em relação aos kosovares, que vinham sendo dizimados pelos sérvios. Até agora, o que se conseguiu foi destruir a Iugoslávia, ampliar a tragédia de Kosovo sem que se possa pressentir qualquer solução positiva para a crise.
Mais grave é notar que, apesar de toda a reação negativa, a Otan, com o apoio dos Estados Unidos, não se mostra disposta a parar com os ataques. Ao contrário, a intenção não confessada, mas patente em muitos pronunciamentos, seria a de lançar forças terrestres para acabar com a resistência sérvia. Isso não aconteceu até agora não apenas devido à reação mais negativa que poderia provocar, até entre as populações dos países europeus membros da Otan, mas porque o maior dos aliados, os Estados Unidos, não se mostram dispostos a aderir. Depois de muitas e trágicas experiências, os norte-americanos estão plenamente contra o envio de seus soldados para uma guerra na Europa. E como nos Estados Unidos a oposição popular também se reflete no Congresso, o presidente Clinton não se mostra animado a atravessar esta ponte e enviar soldados para uma guerra terrestre.
O resultado é que as coisas devem continuar como estão, a não ser que haja uma mobilização ainda maior contra esse barbarismo, inaceitável sob qualquer ponto de vista. Não se discute, naturalmente, a validade da tese, o repúdio contra o genocídio que o governo de Slobodan Milosevic está promovendo contra os albaneses étnicos. A consciência mundial é obviamente contra, como o foi, também, em relação a manifestações similares que ocorreram em outros pontos da antiga Iugoslávia (notadamente a Bósnia), do mesmo modo como não aceita ações semelhantes que ocorrem na Ásia e na África. Genocídio, barbarismo, crimes contra a humanidade continuam a fazer parte do nosso cotidiano globalizado, apesar de tantas evoluções e mudanças. E, conforme já se notou no Iraque e se percebe outra vez na Iugoslávia, não será com bombardeios arrasadores, com mísseis inteligentes, com toda a tecnologia de morte que o ser humano já desenvolveu, que tais problemas serão resolvidos.
O ministro brasileiro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, reiterou a postura de seu governo, que considera lamentável a opção da Otan, ainda mais sem a prévia autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas. ‘‘Acredito que, nesses casos, o critério fundamental é observar as normas de convivência internacional e a carta da ONU, que é completa e equilibrada para a manutenção da paz e da segurança. Estas são as diretrizes básicas da comunicadade internacional’’, afirmou Lampreia. A conclusão é simples. E, no entanto, representa a resposta única que a humanidade deve buscar para conseguir resolver seus aparentemente complexos problemas. A ONU foi criada para evitar guerras, ao cabo do mais terrível de todos os conflitos enfrentados pelo homem. Não pode ser posta de lado pelos belicistas, pois o momento é grave.

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