Intenções positivas
Ao anunciar, pouco antes de deixar os Estados Unidos, que pretende agilizar medidas substantivas para encaminhar a reforma tributária, o presidente Fernando Henrique Cardoso deixou claro que conhece os problemas, entende a premência da solução para eles e sabe até alguns caminhos para dar respostas a algumas dificuldades. O presidente foi até categórico ao anunciar que pretende acelerar a aprovação de algumas medidas, indicando como prioridade a eliminação dos impostos em cascata, que encarecem a produção, como o PIS e a Cofins. Banqueiros e empresários que ouviram FHC se mostraram entusiasmados e receptivos, adiantando que tais medidas são importantes e urgentes e que vão atender aos melhores interesses do País no sentido de superar plenamente a crise que o acometeu.
O problema porém é saber se este anúncio feito pelo presidente brasileiro não é apenas aquele tipo de pronunciamento oportuno, feito para agradar a determinado auditório. Esta é a grande dúvida, em um momento crucial em que não se pode mais admitir adiamentos. Como bem lembrou um dos interlocutores do presidente, em Nova York, o sr. John Welsh, economista-chefe para a América Latina do Banco Paris Bas, a preocupação maior de quantos estejam envolvidos com o Brasil é em relação ao futuro. Mostrando conhecer bem a realidade nacional, o economista assinalou que o Brasil precisa concluir este ano a reforma tributária, sem o que haverá novos riscos para a economia do País. Ele lembrou que se a reforma ficar para o ano 2000, as dificuldades vão surgir em função das eleições municipais, o que significará novo adiamento.
Outro interlocutor do presidente brasileiro, o sr. John Lipsky, economista-chefe do Chase Manhattan Bank, foi bem taxativo quando assinalou que ‘todos sabemos que se o Brasil tivesse sido menos complacente no passado e feito o ajuste fiscal antes de a crise estourar, não teria passado o que passou’. Por mais que não agrade ouvir de gente de fora - o que mexe até com os brios nacionalistas - este tipo de crítica, não há como deixar de reconhecer que o sr. Lipsky está certo, tanto que internamente já se repetiu este tipo de conceito. A realidade mesmo é que com os resultados, até inesperados, nos primeiros tempos do lançamento do plano de estabilização da economia, houve mesmo uma certa complacência nos meios governamentais. Todo o plano estava estruturado sobre a necessidade das reformas estruturais. Realizá-las era um compromisso de governo. Mas como as coisas pareciam ir bem demais, os políticos (aí incluindo o Executivo Federal) se mostraram pouco animados a realizar a tarefa.
O presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a garantir, ainda que indiretamente, que esta falha não irá se repetir, quando disse que a atual recuperação brasileira não vai provocar uma onda de ufanismo vazio. Disse lá o que tem sido assinalado aqui: a não-concretização das piores previsões sobre a situação econômica do País não significa que se possa pensar que tudo está resolvido e que o Brasil já está de volta aos trilhos do crescimento. Esta é a vontade, até porque só com a reativação da economia é que será possível enfrentar o desafio do desemprego, com todas as suas consequências positivas.
Se o presidente realmente se dispuser a fazer agora o que anunciou antes de deixar os Estados Unidos, principalmente agilizar a reforma tributária, as perspectivas serão muito boas. O que é preciso conferir, porém, é se o discurso foi feito para valer ou se fez parte, apenas, de mais uma peça promocional para uso externo, o que, sem dúvida, frustraria as esperanças da população.

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