Insensibilidade legislativa
Conforme um estudo realizado pelo gabinete do conselheiro Sérgio Quintella, do Tribunal de Contas do Estado do Rio, dos 91 municípios fluminenses, 13 gastam com as câmaras municipais tanto ou mais do que com saúde e saneamento. O trabalho, com base em números de 1997 (os de 1998 ainda não estão completos, mas não devem diferir muito, segundo os técnicos da instituição), revelou que os dispêndios com os legislativos municipais subiram 4% naquele Estado em relação a 1996, tendo chegado a R$ 335 milhões. Somadas às da Assembléia Legislativa, as despesas do gênero foram a R$ 703 milhões.
Obviamente, a comparação pode ser contestada, até porque são fatos diferentes. As despesas com o Legislativo nada têm a ver com o que um município, o Estado ou a União despendem com saúde, educação, segurança. Ademais, este tipo de estudo pode levar a conclusões negativas sobre o papel dos legislativos na vida democrática. Entretanto, não há como fugir à percepção de que há alguma coisa errada em um país em que se gasta mais com vereadores que com saúde ou saneamento, do mesmo modo como surgem sérias dúvidas quando se sabe que o Banco Central joga mais de R$ 1 bilhão para salvar bancos privados, enquanto a população sofre com todo o tipo de carências. A falta de remédios para os doentes, em quase todo o País, a situação catastrófica em hospitais, enfim, são alguns fatos vistos e sentidos pela população, paralelamente à difusão dos desperdícios de dinheiro para salvar banqueiros falidos e ao conhecimento de que câmaras de vereadores consomem mais do que o que se aplica para reduzir um pouco o sofrimento do povo.
Ainda mais grave é perceber que, enquanto os dramas sociais continuam, persiste a falta de sensibilidade dos que foram eleitos para defender o povo. Em Rolândia, município situado a 15 quilômetros de Londrina, os vereadores acabam de aprovar projeto para garantir o pagamento de sessões extraordinárias. E este é apenas um entre tantos episódios que vão se reproduzindo de iniciativas realizadas por legisladores municipais em benefício próprio, enquanto os municípios sofrem as maiores dificuldades, os prefeitos correm às capitais estaduais e a Brasília para pedir recursos e apoio e a população se vê atirada a uma situação cada vez mais desesperadora.
Ao lado de todas as dificuldades decorrentes da tragédia social, que se evidencia na falta do mínimo para atender às necessidades da população mais carente, dados como os divulgados pelo TCE do Estado do Rio funcionam como fator negativo em relação ao papel dos que são eleitos para governar. Legisladores que pensam apenas em seus interesses, transformando os cargos que ocupam em uma sinecura, fazem um tremendo mal à democracia e à cidadania. E precisam despertar logo, antes que, pelo voto, o povo lhes tire o mandato que demonstraram efetivamente não merecer.

mockup