Brasil e EUA
Na visita de trabalho de quatro dias, iniciada sábado, nos Estados Unidos, destinada principalmente a restabelecer a confiança da comunidade financeira internacional na recuperação da economia do Brasil, depois da crise que levou a uma drástica desvalorização do real em janeiro passado, o presidente Fernando Henrique Cardoso enfrenta muitos desafios. O mais sério, sem dúvida, é conseguir convencer o presidente norte-americano Bill Clinton a conter o protecionismo dos Estados Unidos no terreno econômico. A pressão norte-americana, segundo Fernando Henrique, ameaça fechar o mercado para alguns importantes produtos brasileiros de exportação. Acontece que a política econômica norte-americana tem uma linha que pode ser resumida em uma frase, bem conhecida: ‘‘Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço’’. Para os Estados Unidos, defender o livre comércio é uma forma de tentar impor sua política de exportação, abrindo mercados externos. Já na outra parte da equação, que seria a abertura real do mercado norte-americano, a questão é mais complicada. Pode parecer que não, até porque a pauta de importações dos Estados Unidos é enorme. Todavia, existe um controle muito amplo em relação às importações e uma pressão forte das lideranças sindicais, que estimulam sanções como as que vêm sendo adotadas, atualmente, contra produtos siderúrgicos, não só brasileiros mas de vários outros países.
A propósito, o próprio Fernando Henrique negou que o Brasil esteja freando a criação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), mas advertiu que o Brasil busca um acordo no qual todas as partes façam concessões e obtenham benefícios. ‘‘Tem de ser algo equilibrado’’, comentou o presidente, ao explicar a posição do País na Câmara de Comércio dos Estados Unidos. Fernando Henrique enfatizou que existe uma idéia de que o Brasil estaria contra a ALCA e que estaria freando o seu processo de criação, o que não é correto, conforme asseverou. No entanto, acrescentou, ‘‘tem de ser escolhido um caminho de duas mãos, com concessões e benefícios compartilhados por todos’’. Ele explicou que, na hora de negociar a eliminação de barreiras aduaneiras, não é possível que cada país queira tirar proveito selecionando os produtos que convêm ou não à própria economia. ‘‘Todos os produtos devem estar sobre a mesa’’, insistiu. Os líderes de todos os países das Américas, exceto Cuba, concordaram no ano passado em criar a ALCA no ano 2005, mas o processo ficou virtualmente estancado desde então, em particular pela ausência do ‘‘fast track’’, o mecanismo legislativo que concede autonomia ao presidente dos Estados Unidos para negociar de maneira eficaz acordos de livre comércio.
A posição brasileira em face da pressão norte-americana é complicada. Não pode ser diferente. O Brasil, na euforia da chamada integração à economia mundial, abriu as portas para o mundo - especialmente para os Estados Unidos -, dando início à verdadeira farra dos importados, inundando o país de coisas absolutamente dispensáveis. Pior, um tipo de abertura indiscriminado acabou prejudicando a indústria nacional. Sem dúvida, são compreensíveis algumas medidas adotadas pelas autoridades econômicas, reduzindo alíquotas de importação de certos produtos para conter a especulação e preços abusivos. O problema é que não se pode deixar de lado as necessidades internas. Há que se estabelecer um equilíbrio e, principalmente, é vital que se leve em conta o interesse interno, que é o que fazem os norte-americanos. Diante da melhoria da situação econômica brasileira, agora, FHC tem uma posição mais sólida para negociar com o seu colega norte-americano, em termos que interessem ao Brasil.

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