Editorial
Pela oitava vez desde que começou a bombardear a Iugoslávia, a Otan errou o alvo. Acertou a Embaixada da China, em Belgrado. Os decantados mísseis inteligentes, que em tese seriam programados só para destruir alvos militares, estão falhando e atingindo civis. Embora a situação provoque revolta e repúdio, a Otan considera ínfimos os erros, talvez fazendo a análise sob a ótica da estatística: de fato, é provável considerar que mais de 90% dos mísseis inteligentes atingiram só objetivos militares. Falta considerar, porém, que as 222 pessoas mortas pelos erros dos mísseis são vítimas reais de uma situação absurda. O lamentável é essa observação desumana que, no final, apenas reflete uma atitude inaceitável, sob quaisquer padrões.
No sábado, 8 de maio, houve o 54º aniversário do fim da II Guerra Mundial na Europa. Naquele dia, sirenes ecoaram pelos países aliados (Brasil inclusive) anunciando o fim da mais sangrenta e terrível das guerras realizadas pelo homem, em toda sua História, com a rendição incondicional dos nazistas. Não era o fim de todos os combates. Restava ainda a luta na Ásia, que só acabou alguns meses depois, em agosto, com a explosão de bombas atômicas sobre cidades japonesas, o que levou também à rendição incondicional do exército nipônico. No balanço final daquele pavoroso conflito, um quadro de destruição e desumanidade como não se conheceu sequer nos tempos do barbarismo de Átila ou de Gengis Khan. Diante dos hediondos crimes praticados pelos nazistas, pelos fascistas, pelos comunistas e pelos próprios democratas, os sanguinários bárbaros de eras antigas dão a impressão de aprendizes.
A guerra que terminou há 54 anos na Europa ensanguentou a Iugoslávia e todo o Continente. Era um conflito destinado, conforme o discurso eloquente dos líderes mundiais, a acabar com todas as guerras. Não atingiu o objetivo. Nos quase 50 anos subsequentes, o mundo se dividiu e vivenciou conflitos aparentemente sem fim. Depois, a queda do Muro de Berlim, a reunificação alemã e o colapso da União Soviética davam a impressão de que, finalmente, uma era de paz estava começando para o mundo. O chamado Homo sapiens parecia estar, afinal, usando sua decantada razão para encontrar caminhos melhores de convivência. O que aconteceu no Iraque e o que se está vendo agora na Iugoslávia mostram que foi mais um engano. Os mercadores da guerra continuam a deixar claro que são mais competentes do que os arautos da paz. A Otan, criada há exatos 50 anos para, como se informava, enfrentar o desafio comunista da Europa Oriental, perdeu sua finalidade com o fim da Guerra Fria. Só que isso não interessa aos que vivem do comércio bélico. Sem função real, a Otan acabou descobrindo uma atividade diferente: tornou-se instrumento dos belicistas, atacando de modo brutal um país soberano.
Sem dúvida, a Iugoslávia de Slobodan Milosevic não é um exemplo. Os crimes que vêm sendo cometidos contra os kosovares de etnia albanesa são, no mínimo, similares aos que os nazistas perpetraram na Europa no tempo do seu domínio. No Iraque, a situação também não é diferente: Saddam Hussein é igual a tantos sanguinários ditadores que o mundo tem conhecido ao longo dos séculos. Os genocídios que ocorrem na África, os abusos na Ásia, a miséria na América Latina - são fatos inconcebíveis. Mas não se vai resolver isto com mísseis inteligentes na Iugoslávia ou em qualquer parte. A solução está na inteligência do homem e não das armas. É preciso haver uma repulsa mais ampla, de todos os seres humanos, a este novo espetáculo de destruição em nome de interesses escusos inaceitáveis.





