Escolha política
No depoimento que prestou à CPI dos Bancos, o superintendente da Bolsa de Mercadorias e Futuros, Edemir Pinto, informou que as garantias dos bancos Marka e FonteCindam eram suficientes para cobrir eventuais perdas, o que tornaria desnecessário o socorro que o Banco Central prestou. Para reduzir o impacto da afirmativa, o titular da BM&F ponderou que havia o risco de uma quebra generalizada, se aqueles bancos não pudessem honrar seus compromissos. Todavia, como eles tinham garantias, é certo que não precisariam de ajuda para resolver as dificuldades em que se encontravam. Por isso, até o sr. Edemir Pinto afirmou, taxativamente, que a operação de ajuda àqueles estabelecimentos foi um ato de vontade do Banco Central que, como se sabe, acabou fazendo a BM&F enviar uma carta para funcionar como uma espécie de desculpa diante da eventual reação em face do absurdo da situação.
O que se conclui é que a ação do BC decorreu da vontade de seus responsáveis. Diante disso, fica até fácil perceber como é certa a afirmativa segundo a qual as atitudes do governo, em qualquer campo, dependem da vontade política. A direção do BC teve vontade de ajudar os bancos Marka e FonteCindam. E o fez. O que leva à conclusão de que muitas outras coisas, que melhor atenderiam às necessidades do povo brasileiro, poderiam ser feitas se houvesse vontade política. Coisas como a distribuição de remédios para os milhões de doentes que dependem de medicação que não está sendo fornecida ultimamente. O drama de brasileiros que vivem em precárias condições, que ganham uma aposentadoria de fome, que sobrevivem em situação lamentável, poderia ser menor se houvesse em relação a eles a mesma vontade que o Banco Central demonstrou ao socorrer os citados bancos.
Aparentemente, pode-se considerar que não há ligação entre as atitudes do Banco Central e as deficiências dos programas de sáudeXXXXXX. Todavia, sob uma visão mais ampla, é possível entender que há uma relação plena, já que tudo parte de um mesmo governo. Os esforços de alguns aliados do presidente, no sentido de evitar que a lama dos escândalos acabe atingindo sua figura, são ponderáveis. Entretanto, também aí é preciso observar que tudo o que ocorre em nível de governo federal tem relação com o presidente - eleito pelo povo e, sem dúvida, é responsável pelos acertos, desacertos e pelas escolhas políticas de cada setor. O dinheiro do BC não tem nada com as verbas do Ministério da Saúde. Porém, é certo que o volume de recursos destinado à saúde é uma questão de escolha. E a possibilidade que tem um organismo com o BC de jogar milhões para ajudar estabelecimentos privados também evidencia uma postura de governo.
O Brasil, infelizmente, tem muitos desses contrastes. Alguns privilegiados recebem milhões para garantir suas artimanhas no mundo financeiro enquanto a maioria dos desvalidos e desassistidos padece em filas para conseguir um atendimento médico precário, sofre por não receber um remédio necessário, vive uma subvida porque o governo precisa evitar a quebradeira de bancos. Há um imenso descompasso nessa questão de prioridades, falta efetivamente a vontade política de resgatar a cidadania dos milhões de desamparados. Existe uma ótica perversa e defeituosa no protecionismo a certas atividades discutíveis em seus fundamentos e resultados. E para completar todo esse quadro verdadeiramente absurdo, sente-se que ninguém será punido pela vontade do BC. O dinheiro jogado para proteger alguns não será recuperado e o povo, que paga tudo, vai continuar a ser prejudicado. É, no mínimo, uma situação verdadeiramente desalentadora.

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