A mensagem de Páscoa é de esperança. Na Páscoa judaica, Deus entra na vida de um povo para libertá-lo da escravidão que durava 400 anos. Na Páscoa cristã há uma intervenção ainda mais direta com Jesus, que vem à Terra para viver como um homem mortal e estabelecer, pela Ressurreição, a imortalidade da alma - não mais uma hipótese, mas uma realidade espiritual. Podemos observar nas duas Páscoas que Deus, intervindo para salvar o homem da escravidão física ou da morte, espera sempre uma resposta humana.
Em relação aos judeus, essa resposta vem sob a forma da provação no deserto, da exigência da fé em sua própria força, que vence um desafio de 40 anos para transformar uma antiga multidão de escravos em seres capazes de exercer a liberdade. E na Páscoa cristã, a salvação trazida por Jesus exige a correspondência de se mudar a vida para que se faça aquilo que o Cristo semeou: o convite ao amor, para que nos amemos uns aos outros como ele nos amou.
A Páscoa, por qualquer ótica, é presente, mas é também compromisso. O que era escravo passou a ser livre, mas precisa perceber que liberdade não é um simples presente, e sim uma responsabilidade. Os relatos bíblicos mostram o lamento de muitos que tinham casa e comida por conta dos seus senhores e, agora livres, precisavam lutar até pela Terra que lhes fora prometida. No cristianismo, o compromisso determina que cada cristão seja ‘‘fermento na massa, luz no mundo’’, exemplo permanente. Não basta dizer que ‘‘é cristão’’, como o próprio Cristo destacou em uma de suas muitas afirmativas, quando disse que ‘‘não é aquele que diz Senhor, que entrará no Reino dos Céus, mas quem faz a vontade do Pai’’. A vontade do Pai está contida nas palavras do Filho!
O Brasil, país que tem uma esmagadora maioria de cristãos em sua população, mostra como ainda estamos longe de abraçar esse compromisso numa dimensão maior, que envolva a sociedade inteira e não somente pessoas e grupos bem-intencionados. São, também, maioria absoluta os cristãos no Governo, e no entanto nossas ruas, a periferia das cidades e os campos são exemplos da maior humilhação e desamor a que se pode submeter um ser humano. Há miséria, dor, desamparo e desesperança para mais da metade da população do País. E não só aqui nesta parte do continente sul-americano, mas na maior parte de todo o planeta. Os ensinamentos da Bíblia, que começam com os Mandamentos de Deus, no Velho Testamento, ou a Lei do Amor, no Novo Testamento, ainda não tiveram consequências efetivas na realidade do mundo.
Todavia, isto não deve ser motivo para desânimo. Na Terra se dá uma experiência evolutiva que mobiliza todas as formas da Criação, do reino mineral ao reino humano. Nem Jesus, nem Moiséis, nem os profetas do Antigo Testamento pretenderam ou previram a instalação do Reino de Deus na Terra por um passe de mágica. Nada acontece assim nos mundos evolutivos. E a Páscoa é, por isso também, uma possibilidade de revisão e renascer. É uma permanente rememoração da vida, lembrando-nos a cada ano que o ser humano pode aperfeiçoar-se e crescer para assumir plenamente seus verdadeiros compromissos na Terra.
Lembremos as palavras de Jesus à mulher adúltera que o procurou: ‘‘Teus pecados te são perdoados’’, disse. E acrescentou, simplesmente: ‘‘Vai e não peques mais’’. A essência de sua mensagem está contida nestas palavras e no seu gesto: a possibilidade plena do perdão, desde que se assuma, paralelamente, o compromisso de não pecar mais.
A Páscoa é Ressurreição e, com isto, é também Reconstrução e Renascer. A essência de sua comemoração é a promessa de que o amor universal deve ser o compromisso mais forte que toda a sociedade humana - e não somente o indivíduo - pode assumir.

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