Editorial
Perspectivas melhores
Estimativas preliminares da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) sobre o comportamento da economia brasileira este ano são mais otimistas do que as de vários bancos estrangeiros de investimentos e até do Fundo Monetário Internacional (FMI). A revisão das projeções econômicas da Cepal, que deve ser divulgada oficialmente dentro de duas semanas, mostra que o Produto Interno Bruto (PIB) do País deve retrair-se este ano, no máximo, entre 3% e 2%, bem menos que os -5,5% estimados pelo JP Morgan e ainda melhor do que os -4,0% previstos pelo ING Barings e os -3,8% divulgados recentemente pelo FMI.
O economista Alfredo Calcagno, da Divisão de Estatísticas e Projeções Econômicas, disse que a combinação entre a capacidade de oferta do setor produtivo brasileiro e os novos preços relativos dá margem a estimar uma boa recuperação da economia do País a partir do segundo semestre. Para Calcagno, porém, essa recuperação será mais lenta se a taxa de juros permanecer alta e se o governo mantiver uma forte contração nos gastos para aumentar o superávit primário brasileiro. Por isso, acrescentou o economista, seria importante conseguir reduzir a taxa de juros o mais rápido possível e consolidar, de vez, a dívida interna a taxas menores. Para ele, o problema hoje não é apenas conjuntural, já que o Brasil precisa de uma solução mais durável e sólida a médio prazo.
O anúncio feito ontem, em entrevista que o ministro Pedro Malan deu a uma emissora de rádio, parece responder à sugestão do economista da Cepal. Eu já disse de público, mais de uma vez, que está dentro das nossas possibilidades termos taxas de juros reais de um dígito - vale dizer, inferiores a 10% - antes de terminar o ano de 1999, afirmou. Até meados de abril, a equipe econômica trabalhava com taxas reais de 10% a 12% nos últimos meses deste ano. As taxas de juros nominais caíram 13 pontos percentuais em dois meses e continuam com clara indicação de baixa refletida nos mercados de juros futuros, observou.
A melhoria no quadro econômico não ocorre somente com relação às taxas de juros, mas também nas estimativas de inflação. Malan considerou positivo o fato de bancos e consultorias estarem revendo para baixo suas projeções de inflação para 99. Acho que essas revisões são positivas e mostram uma coisa da maior importância: a maioria da população brasileira não deseja o retorno do descalabro inflacionário, comentou. A queda nos juros e da inflação mostra que o Brasil está se recuperando mais rápido do que muitos imaginavam, completou Malan.
Alfredo Calcagno acredita que a recuperação do Brasil, a partir do segundo semestre, será um dos fatores para um resultado menos pessimista da economia em toda a região. O Brasil conseguiu controlar os principais riscos provocados pelas políticas abruptas de desvalorizações adotadas em alguns países, explicou o economista da Cepal. De acordo com ele, a desvalorização do real, depois de um over shooting violento em um primeiro momento, não teve efeitos tão expressivos como a ocorrida no México na crise de dezembro de 1994.
Ainda há muita coisa a ser feita para que o País consiga emergir da crise a que foi lançado com a desvalorização do real, neste começo de ano. Todavia, não só as previsões positivas de especialistas internacionais, mas garantias como as que o ministro Malan oferece ao lado da percepção de uma real mudança na situação levam a crer que, de fato, as perspectivas positivas, para o futuro, são hoje mais sólidas. Se o Brasil conseguir superar os obstáculos ainda presentes, notadamente na área da produção e do emprego, seguramente poderá reverter a previsão negativa e voltar a crescer em pouco tempo.





