O governo e os índices
A queda no índice de aprovação popular, como demonstra a Pesquisa CNT/Vox Populi divulgada terça-feira, levou o presidente Fernando Henrique Cardoso a lançar uma pesada ofensiva política. Ao longo do dia, o presidente FHC definiu com o PFL uma pauta de trabalhos para as próximas semanas, procurando assegurar que o Congresso apresse as votações de reformas de caráter fiscal, anunciou que promoverá em breve a troca das lideranças do governo no Congresso e no Senado, e acenou com medidas de ajuda aos governos estaduais. Com isto, o governo poderá travar uma grande disputa com a CPI dos Bancos pela manchete dos principais jornais do País nos próximos dias. O esforço é válido, mas nada garante que o Planalto será bem-sucedido na estratégia de minimizar o impacto de notícias negativas com fatos positivos que agradem tanto aos brasileiros quanto aos investidores estrangeiros.
É uma situação verdadeiramente complicada. Um governo que foi empossado há menos de 6 meses, eleito 3 meses antes por maioria absoluta do eleitorado, não deveria estar sofrendo este desgaste. O natural é que um governo mantenha, até o final do primeiro ano, uma situação razoável diante do povo, a não ser que ocorra algum tipo de catástrofe. Ademais, há a considerar que este é um velho governo novo porque embora tenha sido eleito em outubro temos de fato um presidente reeleito. Em tese, seria outro motivo para que o governo mantivesse prestígio. Na realidade, porém, existe o desgaste dos 4 anos e, principalmente, há o efeito verdadeiramente avassalador da crise do real que foi, sem dúvida, o grande eleitor de FHC tanto no primeiro quanto no segundo mandato.
A queda (ou desvalorização em face do dólar) do real, não representaria, porém, um motivo tão forte, capaz de derrubar o prestígio do governo, não fossem outras circunstâncias, até porque houve uma reação boa da economia, que não voltou à inflação, como se temia nos primeiros dias da mudança cambial. Os outros fatores, entretanto, é que pesam. Há a realidade do grande problema do desemprego, que foi um dos temas da campanha de FHC para a reeleição, e que não mostra sinais de melhora. A questão mais grave, contudo, é outra. O escândalo que se denunciou, com a ajuda dada pelo Banco Central a bancos que estavam praticamente falidos, com as revelações que vêm ocorrendo sobre uma situação escabrosa (ainda que, como insistem os membros do governo, não ilegal), na forma de gerir o dinheiro público, realmente desgostou a população. O brasileiro quer saber por que é que o BC resolveu ajudar com tantos milhões um banco em situação difícil. Também existe a insatisfação por se perceber que não só não haverá ressarcimento do dano - ficando a conta, como sempre, por conta dos contribuintes -, como certamente prevalecerá também a impunidade.
A intenção do presidente de desviar as atenções diante da questão igualmente milita contra ele. Não há como criar fatos novos capazes de provocar impacto positivo, enquanto se percebe a péssima gestão do dinheiro público, a falta de isenção do Banco Central (para dizer o mínimo) e surge um crescente sentimento de que o governo parece interessado em varrer para debaixo do tapete toda a sujeira que vem sendo apresentada, sem levar em conta a insatisfação e até a revolta diante de tudo isto. Não se pode esquecer que a mesma população que mostra uma crescente insatisfação com o governo federal considera a CPI dos bancos positiva, ainda que para muitos ela tenha potencial para agravar a crise que o País atravessa. Para recuperar-se diante da população, o governo não precisa hoje de medidas de impacto: tem é que apoiar as investigações e garantir que esta aparente imoralidade não vai se repetir.

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