Editorial
Emprego e trabalho
No momento em que uma das maiores preocupações da maioria é o desemprego, parece deslocada qualquer comemoração para o Dia do Trabalho. Na realidade, bem mais adequado que festejar seria realizar uma análise mais profunda sobre a nova realidade que está se desenhando, no Brasil como no mundo, neste final de século, envolvendo as questões fundamentais da sobrevivência humana, na maior parte das vezes envolvida diretamente com o trabalho. As estatísticas são desalentadoras, revelando, a cada mês, índices mais elevados de desemprego, ao tempo em que as perspectivas também não parecem muito positivas. Um país como o Brasil, que enfrentou sempre um déficit de empregos e que não consegue, hoje, gerar nem sequer o total capaz de garantir ocupação aos jovens que a cada ano tentam entrar no mercado, já vivencia há muito esta situação que se agrava diante de novos fatores, como a crise econômica que solapa qualquer esperança de melhoria a curto prazo.
A complexa questão da criação de empregos para atender à demanda crescente vem merecendo, mesmo antes da atual crise, debates intensos. As sugestões e propostas vão desde mudanças na legislação trabalhista, efetivamente arcaica e, em alguns casos, desestimuladora, a alterações mais complexas sobre o trabalho em si, não faltando as discutíveis sugestões sobre redução da carga horária para a produção de mais vagas. O que parece faltar a todo este debate, porém, é um aprofundamento na necessidade que se faz cada vez mais premente de uma verdadeira modificação nos conceitos que regem atualmente o assunto. Discute-se muito o emprego, quando talvez a ótica devesse se voltar para o trabalho, que, aliás, é o que se comemora hoje.
Emprego e trabalho não são necessariamente sinônimos. Isso significa que é possível haver trabalho sem que ocorra uma relação de emprego. Em realidade, surgem dúvidas quando se compulsam os números sobre desemprego, no Brasil especialmente altos em alguns grandes centros. De fato, parece impossível que 20% das pessoas na chamada faixa produtiva estejam, hoje, sem fazer nada. Quer dizer, inegavelmente, há muitos desempregados. Mas ponderável parcela está trabalhando. Aí entra em linha a questão do emprego informal, aquele sem carteira assinada e, por extensão, sem garantias legais. Essa é uma realidade antiga. Embora seja quase impossível obter números concretos sobre o mercado informal, é indubitável que existe uma faixa imensa de brasileiros, hoje como nas últimas décadas, vivendo (e trabalhando) sem carteira assinada, sem uma relação de trabalho formal.
Paralelamente, há a considerar aqueles que criam seu próprio emprego. Há, neste campo, os do mercado formal, médios, pequenos e até microempresários que poderiam merecer mais apoio oficial, e que em boa parte já fazem parte do mercado formal. Mas há igualmente um indefinido número de pessoas que operam informalmente no setor, até mesmo sem perceber. Em princípio, a impressão é a de que esse tipo de alternativa é muito marginal, rendendo um ganho insignificante. Ponderável parcela efetivamente enfrenta esse tipo de dificuldade, mas é certo que também se pode encontrar iniciativas produtivas que acabam frutificando.
A questão, sem dúvida, é, entre tantas, aprofundar o enfoque para perceber que no quadro diferente que se descortina, nesta profunda revolução que está acontecendo, há diferentes meios para enfrentar a situação. O emprego existe para garantir ao cidadão o meio de vida. Isso pode ser obtido pelo trabalho, sem vínculo, dependendo da criatividade e da disposição de enfrentar o desafio e produzir novas alternativas para a vida.





