As ruas que, há quase dois mil anos, foram testemunhas mudas da passagem de Jesus rumo ao Calvário, continuam a ser, hoje, palco de desentendimentos e disputas que ameaçam, outra vez, banhar de sangue a cidade santa de Jerusalém. Chamada ‘‘Cidade da paz’’, Jerusalém tem sido, através dos séculos, palco dos mais terríveis dramas da História humana. A cidade, sagrada para judeus, muçulmanos e cristãos, ao invés de ser o ponto de encontro dos homens, o local sagrado para que todos se unam louvando ao mesmo criador, tem sido um ponto da discórdia, verdadeiro barril de pólvora pronto a explodir a qualquer momento.
Nestes dias em que o cristianismo rememora o sacrifício de Jesus e em que os judeus comemoram festivamente a libertação do Egito, Jerusalém, como Belém, a terra de Jesus, deveria estar engalada e festiva, recebendo peregrinos, oferecendo condições para que todos, independentemente de suas crenças, elevassem orações, ao mesmo Criador que, em tese, motiva a discórdia. O que ocorre, porém, é o oposto. Os centuriões romanos que levaram Jesus para a cruz foram substituídos pelos soldados israelenses que se confrontam com os palestinos. Em lugar das lanças, balas; ao invés do açoite, o gás lacrimogêneo, o sofrimento e o medo ocupando o lugar em que Jesus orava e no qual foi sacrificado para a redenção de todos os homens, crentes ou não.
A crise toda, sabe-se, não pode ser atribuída à religião. O anseio natural dos judeus em ter Jerusalém como capital de seu Estado é compreensível. Ocorre que também não se pode deixar de entender o sentimento dos cristãos em torno de Jerusalém, local mais santo por exemplo do que Roma, pois foi ali, pelas ruas da Cidade Velha, no Templo destruído pelos romanos, que Jesus andou, pregou e morreu. E foi lá também que ressurgiu dentre os mortos. Igualmente os muçulmanos, que têm a mesma origem do povo judeu, filhos do mesmo Patriarca Abraão, têm em Jerusalém seu local sagrado. Todos têm direito. E todos poderiam conviver em paz ali, desde que houvesse por parte dos homens o sentimento real do que é o sentido maior da presença de Deus em relação a suas criaturas.
Quando se observa toda a incompreensão religiosa que ocorre ali e que também se difunde por outras partes do mundo, percebe-se que as mensagens positivas das religiões monoteístas têm sido deturpadas ou esquecidas. Ao longo dos últimos dois mil anos, milhões foram mortos em todo o mundo em nome de Jesus ou de Maomé, ou até de Moisés. O meigo Rabi que foi crucificado no Calvário jamais teve alguma palavra no sentido de se matar em Seu nome. Quando Pedro feriu um dos centuriões que O foram prender, Jesus curou o soldado. Pensar que, poucos anos depois, em nome de Jesus fossem cometidos tantos crimes é, verdadeiramente, assustador. Se até as mensagens mais puras podem ser deturpadas, então é realmente impossível esperar que o ser humano um dia evolua de seu barbarismo para perceber que até mesmo acima das religiões está um único Criador.
As lições do Calvário, infelizmente, não têm servido para que haja ‘‘paz na terra aos homens de boa vontade’’. Jerusalém, tão amada por Jesus, pelos profetas, construída para ser o santuário do Deus Único, continua a ser terra dividida e banhada pelo sangue dos inocentes. Todas as justificativas, mesmo as mais cínicas, são usadas para que persista o desentendimento que gera a dor e provoca mais sofrimento.
É necessário lembrar que Jesus se entregou à Cruz para redimir os homens, em todos os tempos e de todas as crenças. Sua mensagem foi levada, por determinação expressa dEle próprio, a todos os povos, a todos os continentes. E era uma palavra de amor e união. Quase dois mil anos depois daqueles memoráveis eventos, Jerusalém, como o mundo, continua dividida e mergulhada em lutas. Neste dia, em que se lembra a doação mais plena que alguém fez à humanidade, é justo insistir na necessidade de que o sacrifício de Jesus possa ser um dia entendido como um esforço para unir todos os homens, sob o abrigo de um mesmo Pai.

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