Exigindo punições
A postura do sr. Francisco Lopes, ex-presidente do Banco Central, ao se negar a falar a verdade perante a CPI do Senado sobre o eventual favorecimento do banco a alguns estabelecimentos, como a de algumas outras autoridades, em outros poderes inclusive, dá a impressão de que eles vivem como se fossem membros dominantes de uma monarquia absolutista, e não funcionários em uma democracia representativa. O Banco Central não é um estabelecimento privado que deve, eventualmente, contas aos acionistas ou donos, mas é uma parte do complexo chamado governo, e como tal não são admitidas a seus gestores atitudes arbitrárias ou reações abusivas. O BC usou cerca de R$ 1,5 bilhão, conforme dados compilados pela CPI, para salvar bancos particulares, em uma operação no mínimo discutível. Alguém tem de pagar por isso. O Brasil tem de ser ressarcido por essa - e tantas outras - atitudes. Mais, ainda, é preciso que haja punições sérias, completas. Que os responsáveis sejam presos (mas não como o sr. Francisco Lopes, que se livrou pagando R$ 300 de fiança, horas depois de sair do Senado), depois de um julgamento pleno, e que os bens auferidos de modo abusivo sejam confiscados. Nada menos que isso é aceitável para restaurar efetivamente a credibilidade da população, não apenas em relação ao Banco Central, mas a todo o esquema de governo no País.
Todo esse clima de denúncias, as revelações que a imprensa passa sobre abusos os mais diversos, cometidos em praticamente todos os setores da vida pública são, sem dúvida, elucidativos. É preciso, porém, que as coisas se completem. Em alguns casos, vale rememorar, isso tem acontecido. Foi em função de denúncias que caiu o governo Fernando Collor. Um grande número de parlamentares perdeu o mandato. E estão presos muitos fraudadores da Previdência, juízes inclusive. Mas, pelo que se percebe diante das novas denúncias, e até mesmo em face de um certo procedimento abusivo de muitos representantes do povo, ou de funcionários públicos de modo geral, ainda há muito a fazer para limpar este país, para acabar com essa farra às custas do dinheiro público. A liberdade de imprensa ajuda. Muitos excessos acabam sendo até evitados porque a denúncia alerta a opinião pública e força mudanças.
É longo, porém, o caminho para se atingir o ideal, para acabar com a roubalheira, as fraudes, os verdadeiros crimes que se cometem com o suado dinheiro público. Ainda existem pessoas, como o sr. Francisco Lopes, que se consideram acima da lei. Gente que usa o dinheiro dos contribuintes como se fosse seu, que se aproveita das posições que ocupa para beneficiar amigos e associados. A CPI do Senado ainda não aprofundou toda a questão relativa ao vazamento de informações que beneficiou alguns poucos, à época da desvalorização do real. E isso é tão importante como descobrir os motivos das manobras para salvar os bancos dos amigos do sr. Francisco Lopes. Alguns dados já revelados indicam que determinadas corretoras - assim como alguns pequenos bancos - agiram às vésperas da desvalorização da moeda, como se tivessem tido algum tipo de informação especial. Isso tem de ser apurado. E têm de ser punidos os responsáveis, que usaram seus conhecimentos de modo doloso.
O ministro das Comunicações e articulador político do governo, Pimenta da Veiga, mostrou-se preocupado por entender que o Congresso, envolvido com as CPIs, poderia descuidar de suas funções. Acontece que, além de legislar, o Congresso tem também a função de fiscalizar. Sem dúvida, os congressistas podem cumprir bem as duas missões, igualmente importantes. Com boa fiscalização, com o fim do assalto aos cofres públicos, é possível que precisemos de menos leis e menos impostos para resolver os problemas do Brasil.

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