Editorial
OTIMISMO SEM UFANISMO

Desconhecer alguns bons resultados da economia brasileira, nos últimos tempos, seria um despropósito. Em seguida ao verdadeiro furacão produzido pela desvalorização do real, com todas as tremendas conseqüências que chegaram a colocar em dúvida os rumos do País, sinalizando com a retomada da inflação e da recessão, o Brasil conseguiu mudar o panorama, criando uma situação bem menos assustadora. Há bons indícios no ar, sem dúvida. Todavia, é preciso evitar que o temor inicial dê lugar a um ufanismo sem base, como o percebido em recentes pronunciamentos do presidente Fernando Henrique Cardoso. Frases como ’’O pior já passou’’ e ’’O Brasil está de novo no bom caminho’’ podem servir para animar, mas ameaçam constituir-se em novas e perigosas ilusões neste momento que reclama muita atenção, cuidado e trabalho.
Vale lembrar que, recentemente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou sobre os perigos de novos choques globais e do protecionismo para a economia mundial, embora destacando que continua mantida a previsão de crescimento econômico global em 2,3% para este ano, o que não traz modificações em relação ao prognóstico de dezembro passado. Em informe semestral sobre a economia mundial particularmente cauteloso, o FMI advertiu que vários obstáculos podem frustrar uma recuperação do crescimento mundial prognosticado em 3,4% para o ano 2000, depois de ter caído a 2,5% em 1998.
Em particular, o informe previne sobre os crescentes desequilíbrios globais comerciais gerados pela crise nos mercados emergentes, adiantando que o padrão desigual de crescimento entre os Estados Unidos, a zona do euro e o Japão poderiam aumentar movimentos desestabilizadores nos tipos de câmbio e também incrementar as pressões protecionistas. O FMI destacou - e este é sem dúvida um dado preocupante - que o panorama para o Brasil e Japão é muito pior que o previsto em dezembro: acredita-se que a economia brasileira poderá cair 3,8% este ano, em vez do índice de 1% previsto em dezembro; espera-se ademais uma queda de 1,4% da economia japonesa, e não 0,5% como foi prognosticado há cinco meses. A crise brasileira, para o FMI, impulsionou uma nova contração da economia mundial, e a fragilidade nos setores financeiros de várias economias de mercados emergentes, incluindo a China, aumentam os riscos de uma continuação das turbulências.
O FMI também avaliou que pode haver uma terceira fase de diminuição da economia mundial, estendendo a recessão para o ano que vem. O informe cita em particular o risco de uma correção significativa do mercado de ações americano, que poderia desaquecer a economia americana, enfraquecer o crescimento na zona do euro, prolongar a recessão no Japão e dificultar a situação nos mercados emergentes.
Se esses riscos se materializarem, o desaquecimento global poderia se ampliar e se aprofundar em 1999 e no ano 2000, com uma demora na recuperação até 2001. Pode-se considerar que há certo pessimismo nas observações do Fundo Monetário, até porque alguns indicadores demonstram que é possível que o Brasil tenha resultados melhores que os previstos, ainda neste ano. O ideal, sem dúvida, é manter pés no chão. Em vez de transformar otimismo em ufanismo, o governo que tem que fazer sua parte no processo, acabando com os focos de corrupção que ameaçam a credibilidade oficial.

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