Os números não são oficiais, naturalmente. Mas os dados levantados pela American University, de Washington, para o Banco Mundial, dando conta que o crime organizado movimenta no mundo inteiro a importância de 1 trilhão de dólares ao ano são confiáveis, e assustadores. Este volume é idêntico ao PIB da oitava economia do mundo, o Canadá, e poderia colocar até o crime organizado no restrito grupo das potências mais ricas do mundo. Para agravar o quadro, os pesquisadores indicam que a ‘‘economia do crime’’ está crescendo a um ritmo de 7% ao ano, enquanto a economia mundial cresce a uma taxa de 3,5% anuais, o que significa que, em algumas décadas, o crime poderá estar movimentando mais dinheiro que as nações mais ricas do mundo.
Embora não seja possível confirmar estes números, até porque o crime, entre tantas outras coisas, não costuma pagar imposto de renda, a simples observação da situação mundial indica que a atividade criminosa está atingindo atualmente um estágio tenebroso, conseguindo ser, em alguns países, um verdadeiro poder paralelo, quase incontrável. Com o volume de dinheiro que movimenta, ao lado de uma filosofia que não obedece a qualquer norma social, o crime se torna o mais sério inimigo da sociedade humana, conseguindo um poder verdadeiramente avassalador. E os cartéis de droga, os contrabandistas de armas e os demais e múltiplos ramos criminosos do mundo estendem seus tentáculos a toda parte, livres de fronteiras ou de quaisquer limitações legais.
O desafio, que é mundial, é imenso, mas indescartável. Aceitar esta situação, considerada fatalisticamente como um mal impossível de conter diante da atual situação da humanidade, será a verdadeira abdicação dos padrões de civilização que têm norteado os seres humanos e a abertura para o predomínio da lei da selva na vida planetária. O que se constata é que os meios atuais utilizados pela sociedade para enfrentar o crime organizado não estão funcionando. Para uma verdadeira situação de alerta mundial, diante do avanço do crime, faz-se necessária, igualmente, uma verdadeira mobilização global destinada a conter e a modificar este quadro.
Neste final de século, com as fronteiras físicas sendo facilmente vencidas, com a informatização que atinge todo o planeta, para enfrentar os tentáculos do crime organizado será necessário um esforço comum e mundial. Assim como se busca, através de organismos como as Nações Unidas, resolver os problemas políticos mundiais, também é fora de dúvida que medidas globais devem ser adotadas no combate ao crime, em toda parte.
Naturalmente, isto não elide a ação nacional e local. O Brasil, por exemplo, reclama há muito uma política de segurança muito mais objetiva e consciente do que a que se adota atualmente. Chega a dar pena - não fosse caso de pavor - o fato de as polícias brasileiras, de modo geral, se mostrarem tão desaparelhadas em face dos criminosos. Não há armas, não há equipamentos, não há gente capacitada para esta luta contra o crime. Com a desculpa de falta de recursos, nos Estados, as polícias ficam em péssima situação, mendigando até combustível para abastecer veículos a fim de tentar conter os marginais.
No Rio, uma simples contravenção, o ‘‘jogo do bicho’’, se mostra mais forte que qualquer polícia. Ali, aliás, há alguns anos, tentou-se até usar o Exército para conter os marginais, ação que acabou se revelando incapaz de atingir seus objetivos. Isto tudo decorre, basicamente, de uma acomodação, até mesmo de uma falta de vontade política dos governantes, tanto nos Estados (responsáveis diretos pela segurança) como na União que deveria assistir melhor este setor, no interesse da população brasileira. Não há, porém, como fugir à realidade, ou deixar a questão para outra oportunidade. O crime não espera e se torna o maior desafio da civilização mundial. Cruzar os braços ante esta ameaça constitui omissão dolosa contra os cidadãos honestos, aqui como em todo o mundo.

mockup