Toda a ebulição política dos últimos dias, provocada, de um lado, pelas revelações da CPI dos Precatórios e, de outro, pelas informações sobre um possível envolvimento das verbas da campanha de Fernando Collor de Mello com a máfia, é substituída pelo ‘‘banho-maria’’. Antes mesmo do final da semana, já se anunciava que novas revelações poderiam surgir a partir de 3 de abril. O motivo, naturalmente, é a Semana Santa, que começou oficialmente com o Domingo de Ramos e termina com o Domingo de Páscoa.
Embora não haja qualquer tipo de contestação em relação ao sentimento religioso das pessoas, sendo que a Constituição prevê o respeito à crença de cada um, não deixa de ser lamentável perceber que o mundo político brasileiro continua a ser regido por uma indolência que busca, em qualquer circunstância, justificativas para reduzir o ritmo do trabalho. Sobre os políticos brasileiros, aliás, já se dizia que seu calendário sempre foi muito diferente daquele que é seguido pelo homem comum. Por aqui, o ano acaba, politicamente falando, duas semanas antes do Natal e só começa depois da Páscoa.
Ultimamente, alguns fatos pareciam mostrar uma realidade diferente. Este ano, o Congresso foi convocado extraordinariamente em janeiro para dar sequência às reformas estruturais. O que se viu, porém, não foi bem isto. Praticamente toda a energia e o trabalho se voltaram para uma única emenda: a que garante o direito aos chefes de Executivo de tentar a reeleição. O resto ficou para depois. A retomada dos trabalhos normais do Congresso foi nova oportunidade para se acreditar que as coisas poderiam ser diferentes, até porque o próprio calendário ajudou, com o Carnaval acontecendo logo no começo de fevereiro. E a efervescência provocada pelos escândalos dos títulos deu a impressão de que o trabalho iria ser intenso.
Depois vieram as revelações sobre o envolvimento de verbas do chamado esquema PC Farias com a Máfia e a população acreditou que começaria a ver destrinchado mais um caso político, o que levou à queda do ex-presidente Fernando Collor. Mas a Semana Santa acabou restaurando o panorama anterior e tudo pára, no meio político. Brasília se esvazia e todos se voltam para a fé, deixando que as coisas continuem por si, neste país tão religioso.
A história política brasileira vem se construindo, sistematicamente, com ações e omissões. Lamentavelmente, as segundas acabam sempre mais destacadas que as primeiras. Muitos abusos têm sido denunciados, ao longo dos tempos, sem que se veja a punição dos responsáveis ou uma mudança capaz de conter este tipo de prática. Na verdade, uma vez que a impressão é a de que no atual quadro político é quase impossível conter os desmandos, a concretização das reformas estruturais talvez fosse a resposta. Com novas estruturas administrativas, tributárias e também políticas, haveria melhores condições para o pleno desenvolvimento do País, livre das mazelas que vivem sendo denunciadas. Mas as reformas entram também no ritmo modorrento que faz parte do calendário especial que os homens públicos estabeleceram e que lhes assegura muito ócio enquanto os problemas continuam a afligir a vida do povo.
Em passado não muito distante, dizia-se que o Brasil progredia à noite, porque era quando os governantes dormiam. Isto significava apenas o entendimento segundo o qual o governo, de modo geral, ao invés de realizar sua parte, atrapalhava. Muitas coisas mudaram nos anos recentes mas não se consegue ver solidificada uma imagem nova do político brasileiro, aquela que se reclama de pessoas efetivamente dispostas a trabalhar pelo País, sem abusos e sem omissões. O povo brasileiro, em função também das muitas dificuldades que enfrentou nos últimos anos, mudou. Falta, agora, que os políticos acompanhem a mudança e comecem a fazer aquilo que o País reclama: trabalhar.

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