Editorial
Não só aqueles que
promovem limpeza
étnica devem ser
levados a julgamento
Editorial
Crimes contra a humanidade
Líderes militares norte-americanos informaram que estão realizando investigações destinadas a colher elementos visando processar dirigentes iugoslavos por crimes contra a humanidade. Efetivamente - e as imagens e depoimentos mostrados nas últimas duas semanas em relação aos refugiados de Kosovo são provas concretas - o que tem sido feito ali, pelos sérvios contra os albaneses étnicos, é desumano, abusivo e absurdo. Algumas das cenas relembram fatos ocorridos há pouco mais de 50 anos, durante a 2ª Guerra Mundial, quando as vítimas dos nazistas foram tangidas por toda a Europa, em precárias condições, e levadas para campos de extermínio. Dizia-se então que aquilo não poderia se repetir jamais. Infelizmente, não só agora, mas ao longo deste período, com maior ou menor intensidade, crimes deste naipe têm sido cometidos, na Europa como na África, na Ásia e, até mesmo, na América. Os esforços de algumas entidades humanitárias não bastam para mudar esta situação e as ocorrências de Kosovo são apenas as mais recentes, embora, sem dúvida, sejam chocantes.
O mais grave porém é a origem destas atuais denúncias. Os mesmos que acusam os iugoslavos de crimes contra a humanidade são os que patrocinam e participam de um inaceitável bombardeio contra a Iugoslávia. Os ataques foram desencadeados com a justificativa de que estava em curso uma ação de genocídio contra os albaneses étnicos de Kosovo. Tratava-se, portanto, de uma medida dura destinada a conter uma agressão covarde. Entretanto, não há como aceitar que este tipo de ação bélica seja o meio mais efetivo de mudar as coisas, de acabar com atos insensatos desencadeados pelas autoridades da Iugoslávia.
Não existe guerra científica ou de armas inteligentes, como já se percebeu na Guerra do Golfo e também como já foi possível notar nestas duas semanas de bombardeios contra a Iugoslávia. Algumas centenas de pessoas morreram em consequência destes ataques, zonas residenciais foram atingidas, milhares ficaram desabrigados e há um número incontável de feridos. Muitos dos refugiados de Kosovo foram expulsos de suas casas pelos sérvios, fugiram de medo diante do perigo de massacres. Mas é certo que também uma boa parte se origina destes criminosos bombardeios.
A questão a se colocar é precisamente esta: não há como considerar criminosos apenas os que promovem a limpeza étnica, os que massacram minorias, mas também aqueles que lançam bombas e mísseis contra um país, atingindo inclusive civis. Infelizmente, como a História da humanidade é sempre contada pelos vencedores das guerras e como só os derrotados são cobrados, tem-se então o aval para a postura discutível dos militares da Otan, notadamente os norte-americanos. Seria importante rememorar que não só os nazistas provocaram atrocidades durante a 2ª Guerra Mundial. Stalin conduziu também imensos programas de extermínio, o mesmo ocorreu na Ásia e até nos Estados Unidos houve uma ação terrível contra, principalmente, os sino-americanos, fechados em campos de concentração e perseguidos. Mas só os nazistas se sentaram no banco dos réus em Nuremberg.
Não há dúvida sobre a necessidade de se prender, julgar e condenar os que cometem atrocidades, os autores de crimes contra a humanidade, em Kosovo. Entretanto, também deveriam ser indiciados os que fazem o mesmo na África. E, em uma análise ainda mais profunda, seria importante julgar também os dirigentes que autorizam que bombas e mísseis sejam lançados contra populações indefesas, sob a alegação de proteção aos perseguidos.





