O Brasil é um dos poucos países do mundo que conta com os fatores básicos para se converter em verdadeira potência - território e população - mas não consegue transformar este potencial em realidade. E a razão principal disto reside, sem dúvida, no fato de que grande parte da população permanece presa na marginalidade social, e este é um desafio aparentemente intransponível. É certo que um dos efeitos positivos do atual plano de estabilização foi o resgate de uma parte desta multidão de marginalizados que passou a ter condições de vida menos ruins. Todavia, ainda é grande o número dos que sobrevivem na miséria absoluta ou quase, estado que, entre outras consequências, acarreta sérios problemas de saúde. É um verdadeiro e cruel círculo vicioso: os miseráveis não têm saúde porque lhes faltam condições mínimas para a sobrevivência e eles não podem melhorar sua condição devido aos problemas de saúde.
Desde há muito se sabe que a condição fundamental para que o Brasil supere o seu aparentemente crônico subdesenvolvimento é o resgate pleno de sua população. Os efeitos obtidos pelo programa de estabilização não são, como é fácil perceber, suficientes, reclamando-se uma ação mais ampla, abrangente e corajosa no sentido de resgatar esta multidão da marginalidade, condição básica para o sucesso de qualquer tipo de projeto desenvolvimentista.
O lançamento do Ano da Saúde pelo governo federal representa um avanço, principalmente se o programa for acompanhado, como se anuncia, de medidas sociais e concretas, em todos os setores, para resolver as dramáticas condições da população brasileira. Os dados levantados a respeito falam por si: 10 milhões de brasileiros não têm qualquer tipo de assistência médica. Este número representa cerca de 7% da população do país. E a situação dos demais não é das melhores. O quadro que se constata em praticamente todas as cidades do país, nas portas dos hospitais, nos ambulatórios, nos centros de assistência, não precisa de retoques. As notícias sobre pessoas que morrem em filas de postos da Previdência, buscando socorro, se multiplicam. O problema não se observa apenas nas pequenas cidades, nas vilas, nos pontos mais pobres do país mas, e principalmente, nas cidades mais ricas, nas maiores capitais, com multidões de doentes esperando socorro, que muitas vezes não é dado.
Garantir saúde à população é ponto de partida para qualquer tipo de trabalho que se realize visando resolver de fato os problemas do Brasil. Pois, na realidade, o Brasil é seu povo e o retrato que se pode fazer desta população é um quadro de carências, de falta de comida, de doenças, de miséria e, consequentemente, de morte. Quando Monteiro Lobato, há mais de meio século, retratou o ‘‘Jeca Tatu’’, o pobre caipira brasileiro, percebeu-se que ele não era indolente como se dizia. Era um doente. E doentes são milhões de brasileiros, ainda hoje esperando pela mínima atenção que pode transformar a miséria e a pobreza em trabalho e desenvolvimento.
O problema é imenso, mas o desafio é este: ou o Brasil enfrenta este drama social e resgata seus milhões de filhos das garras da miséria e da doença, ou vai continuar a ser o país que diz ser do futuro, mas que se não agir no presente não terá porvir. O Ministério da Saúde anuncia um programa ambicioso, corajoso e firme para enfrentar este drama em todos os setores. O ministro da Saúde, Carlos Albuquerque, em pronunciamento feito em rede nacional de rádio e TV, convocou a população para que todos se unam a este trabalho, dando ênfase adequada aos municípios que, de fato, podem ser centros irradiadores do atendimento à população. Esta convocação só terá sucesso, porém, se o projeto se realizar, se de fato houver um direcionamento e a vontade política de garantir ao povo as mínimas condições de saúde que reclama e merece. Não é uma tarefa impossível e representa, ademais, o ponto de partida para que de fato os brasileiros conquistem um destino melhor, uma vida melhor.

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