Conforme já destacou o jornalista Joelmir Beting, a quase paranóia que se observava há alguns anos no Brasil em relação à inflação, mudou-se agora para a balança comercial. No passado, como se recorda, os índices de inflação não eram mais acompanhados mês a mês, mas por semanas e até por dia. Com a estabilização, as coisas mudaram e os brasileiros se esqueceram deste fantasma. Já com os seguidos e cada vez maiores déficits registrados na balança comercial, o foco de preocupação mudou e atualmente o público tem sido bombardeado com informações semanais sobre a questão.
Aparentemente, esta situação é natural. Afinal, o desequílibrio negativo da balança comercial deve preocupar, ainda mais porque o lastro do real são as divisas brasileiras que, quando a moeda foi lançada, eram de bom tamanho. A impressão que se pode passar, diante da persistência dos déficits, é que até mesmo a moeda corre perigo. Acontece que esta não é toda a realidade: a existência de divisas não depende apenas das importações e exportações, mas de uma série de outras variáveis do comércio mundial. E, conforme asseguram as autoridades econômicas brasileiras, o País continua com um bom saldo de divisas, ou seja, tem ainda firme o lastro de sua moeda.
A tentativa de se criar, com o acompanhamento periódico da balança comercial, uma nova ‘‘mania nacional’’ parece evidente. Fica a impressão de que há algum interesse oculto. Quem sabe, haja até um esforço para provocar áreas de instabilidade na própria economia. Ninguém desconhece que um dos fatores fundamentais no processo econômico é a confiança pública. Não é o único, mas é certo que sem este fator, nenhum programa econômico consegue sequer começar. E o Plano Real tem, hoje, como sua principal força, a confiança da população. Nem mesmo alguns problemas de percurso, como a inflação mais alta em janeiro, mudaram este quadro. E, até agora, os seguidos déficits da balança comercial também não chegaram a abalar a imagem da moeda junto aos brasileiros.
É possível perceber até, em alguns casos, certa intenção de se manipular dados com o objetivo de criar situações que facilitem a ação dos espertalhões de plantão, para quem a estabilidade não serve. Não se trata de ver em cada fato uma manobra escusa, mas de saber que os especuladores que se beneficiaram grandemente com a inflação exacerbada, os que viviam ‘‘levando vantagem em tudo’’, não se conformam com a atual situação e vão fazer o que puderem - corretamente ou não, mesmo porque a ética ou a honestidade é o que menos lhes importa - para desestabilizar a economia. A qualquer preço.
A situação da balança comercial é, sem dúvida, importante. E tudo indica que o Brasil vai conseguir aumentar, significativamente, sua participação no mercado mundial. Para isso, não é preciso cortar as importações, mas estimular a produção e conquistar novos espaços. Agora mesmo, quando os especuladores insistem em anunciar que o déficit está crescendo, o Paraná vê o enorme congestionamento provocado na estrada que vai a Paranaguá pelos caminhões carregados de soja. Este ano, com o aumento da produção agrícola, o País já pode contar com um crescimento na participação de seus grãos na balança de exportação. E há vários outros setores que também estão trabalhando seriamente, aprimorando a qualidade, para ampliar a presença dos produtos brasileiros no mercado externo.
O problema da balança comercial não está em importar menos, mas em exportar mais. Não se trata apenas de déficits ou superávits, mas de um crescimento paralelo nas compras e nas vendas. O Brasil precisa trabalhar com mais disposição para ganhar novos mercados, ampliar sua participação no bolo mundial, sem paranóia ou temor. Os déficits, em realidade, devem estimular a produção, o que só terá efeitos benéficos sobre todas as áreas no País, inclusive a do emprego.

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