A vantagem de o presidente brasileiro ser sociólogo está no fato de ele poder fazer tão interessante comparação entre a África do Sul e o Brasil para afirmar que existe um apartheid social no país que comanda. O apartheid marcou ponderável parte da história recente sul-africana e era o sistema pelo qual a minoria branca predominava sobre a maioria negra, criando divisão criminosa, derrubada após décadas de violência e perseguição. O apartheid a que o sr. Fernando Henrique Cardoso se referiu certamente é o da injusta divisão que existe no país, com ponderável parcela da população vivendo marginalizada, em condições subumanas.
Não se pode deixar de reconhecer que o presidente Fernando Henrique Cardoso produziu, com esta frase, magnífica figura literária. Há, porém, a considerar dois aspectos cruciais diante deste quadro. Em primeiro lugar, a África do Sul livrou-se do apartheid. Hoje, sob a presidência do sr. Nelson Mandela, um dos milhares de vítimas daquele sistema, a África do Sul vive sob outro clima, com negros e brancos em pé de igualdade, ao menos politicamente. Em segundo, soa até leviana uma constatação como a feita pelo presidente brasileiro quando se sabe que o citado apartheid social deveria ter sido enfrentado com muito mais decisão.
Reconhecer o imenso fosso social que existe entre os brasileiros não chega a ser meritório. É uma realidade que salta aos olhos. Lamentável é saber que pouco tem sido feito com afinco e objetividade para superá-lo. Os negros sul-africanos lutaram e se sacrificaram para mudar sua situação. Os marginalizados brasileiros não têm sequer como fazê-lo, tal é a situação de penúria e de indigência em que vivem. E dependem, basicamente, de uma postura mais concreta de suas autoridades.
As críticas à deficiente política social existente no Brasil não são feitas apenas internamente. Recente análise do Banco Mundial sobre a lentidão com que o governo brasileiro vem processando sua política de privatização aborda também a falta de medidas mais concretas para enfrentar o desafio social. O ex-presidente José Sarney cunhou no seu mandato, dentro do seu estilo próprio de fazer política, o ‘tudo pelo social’. O slogan era bonito, mas a ação tinha muito de paternalismo e de demagogia. Já do atual presidente, inclusive por sua formação, esperava-se menos slogans e mais objetividade.
O programa de estabilização da economia, sem dúvida o grande êxito do governo FHC, cujas bases, porém, foram lançadas pelo seu antecessor, ajuda a diminuir as divisões sociais. Hoje, a situação em geral do povo brasileiro é um pouco menos dramática do que no tempo do governo Itamar Franco. Sabe-se, contudo, que isto não resolve todo o problema. Há tão imensas necessidades a atender no campo social, há tamanha miséria em alguns segmentos, que esperar apenas os efeitos do plano de estabilização é condenar uma geração inteira de marginalizados à morte por falta de assistência.
Parece bem mais fácil acabar com o apartheid social brasileiro do que foi liquidar com o apartheid sul-africano. Ali havia um caldo de ódio tão grande, uma violência tão entranhada, que não se acreditava que todo aquele esquema pudesse se esboroar tão rapidamente. Já no Brasil, pode-se falar em séculos de descaso, mas não de ódio ou ressentimento. E é certo que se houvesse um mínimo de coragem e vontade para se enfrentar o drama social dos marginalizados, esta situação poderia ser vencida, sem a necessidade de frases de efeito ou de comparações para uso externo. Não seria tão difícil, ainda mais para um presidente com a formação do sr. Fernando Henrique Cardoso.

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