Editorial
Mesmo que se aceite a informação oficial de que um raio atingiu a subestação de Bauru (SP) na última quinta-feira e gerou um blecaute em dez Estados e no Distrito Federal, isto ainda não serve para tranquilizar a população sobre a impossibilidade de que o apagão se repita. Ao contrário: raios surgem, sempre, em toda parte e ainda que se creia na sabedoria popular que diz que eles não caem duas vezes no mesmo lugar, nada obsta que atinjam alguma outra das subestações que existem pelo País, provocando o mesmo ou pior dano. A idéia de que se trata de um fenômeno natural, impossível de prevenir ou evitar, serve possivelmente para ilibar responsabilidades. Mas não resolve o problema. Ademais, não explica o tal efeito dominó, que é o que se informa aconteceu: o raio atingiu uma subestação e, na sequência, foi acontecendo uma sobrecarga que apagou a luz em um terço do País. Afinal, o que se podia esperar da capacidade humana é que, diante da quase certeza da inevitabilidade da ação dos raios, houvesse medidas de proteção capazes de limitar os danos às áreas atingidas. Quer dizer, um raio que atinge a subestação de Bauru pode apagar as luzes da cidade ou da região. Mas se consegue atravessar vários Estados, provocando uma situação de calamidade, então alguma coisa está errada.
E nem é difícil saber onde está a falha. A transmissão de energia elétrica no Brasil está enfrentando um problema estrutural, provocado pela falta de investimentos e pela histórica preferência estatal por projetos megalomaníacos de geração de energia. A despeito dos problemas que podem ser provocados por fenômenos naturais, a transmissão de energia no Brasil causa preocupação nas autoridades públicas e privadas ligadas ao setor. O sistema seria mais confiável se fossem feitos mais investimentos em transmissão, reconhece o diretor-geral da entidade privada ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), Mário Santos, responsável pela gestão do setor elétrico no Brasil.
Os números de investimento reforçam a preocupação do governo e do ONS. A Eletrobrás, holding estatal do setor elétrico, deveria ter investido R$ 3,6 bilhões no ano passado (em transmissão, geração e distribuição). Mas a política de contenção de gastos determinada pela equipe econômica permitiu que a estatal investisse R$ 2,8 bilhões em 1998 (uma redução de 22% em relação à previsão inicial). Até 2001, o Ministério das Minas e Energia estima que serão necessários R$ 30 bilhões em investimentos para garantir uma maior tranquilidade no setor elétrico. O ministro Rodolpho Tourinho admite que a União não tem essa capacidade de investimento. De acordo com os planos da Eletrobrás, os investimentos específicos na área de transmissão estão estimados em R$ 6,1 bilhões - ou um quinto do ideal imaginado pelo Ministério das Minas e Energia.
Mário Santos, do ONS, lembra que o governo sempre preferiu investir em imensos projetos de geração de energia, como Itaipu e Serra da Mesa, mas que transmissão nunca foi priorizada, inclusive porque o governo considerava que essa atividade não era rentável. Santos entende que esta forma de ver a questão vai mudar com a privatização da estatal, que está sendo desmembrada em unidades geradoras e transmissoras - apenas as geradoras serão vendidas em um primeiro momento. A inevitável carência de recursos por parte da União está reforçando a idéia de privatizar a malha de transmissão, o que não está previsto no modelo de desestatização do setor elétrico inicialmente desenhado pelo governo. Talvez não seja a solução, mas é certo que diante da falta de recursos e da gravidade do problema não há como fugir à realidade sobre a necessidade de se cuidar da transmissão de energia para evitar que outros raios acabem apagando a luz em todo o País.





