Editorial
O chamado escândalo dos precatórios é mais um dos muitos casos de corrupção e abuso que tem sido denunciados no Brasil desde a redemocratização. E, conforme assinalou o senador Pedro Simon, em visita ao Paraná, não é o último. Segundo o senador, o que estamos vendo é somente uma parte de um rombo muito maior que, assinala, pode aparecer através de uma CPI mais ampla sobre o sistema financeiro nacional. Os espantosos números da corrupção já revelados no caso dos títulos públicos emitidos irregularmente por Estados e Municípios seriam somente a ponta de um gigantesco iceberg.
Para os brasileiros, que vêm sendo submetidos a muitos choques desde que o País voltou à democracia - e mesmo antes -, todo este quadro é verdadeiramente incompreensível. Na verdade, diante de tantos assaltos aos cofres públicos, as dúvidas sobre os políticos e o próprio sistema se tornam cada vez maiores. Mais grave ainda é a sensação de que, no fim de tudo, os grandes responsáveis possam ficar impunes ou somente uns poucos serem punidos. Não seria novidade.
A grande novidade é que, com a democracia, torna-se possível saber o que se fazia com o dinheiro público, com a maior desfaçatez. Mas a sociedade não se contenta com isso, nem pode. Reclama-se, com razão, que a redemocratização brasileira serviu somente para que houvesse maior transparência na revelação dos podres da República, porque tem havido poucas punições e porque, como se nota com este novo escândalo, o assalto à coisa pública parece não ter fim. Todavia, uma análise mais profunda mostra que o País está no caminho certo e que é preciso continuar, cavar, investigar e revelar mais, a fim de tornar impossível a impunidade. Assim formaremos na sociedade a convicção de que não só todos os culpados serão descobertos e punidos, mas também que tudo isto pode e deve acabar.
Vale lembrar que a prática de roubar dinheiro público não é recente. E também que durante períodos totalitários isto não só é feito em volume ainda maior, como se torna algo que jamais se consegue investigar. Sabe-se e nada se pode fazer. O Brasil, que há 13 anos emergiu de uma ditadura, ainda sofre dos vícios herdados daqueles tempos. Não é para menos: foram 20 anos de ditadura e silêncio sobre as falcatruas que se cometiam nos desvãos do regime. Perdeu-se, inclusive, o saudável hábito de se escandalizar diante do achaque, pois nada a imprensa podia publicar.
O processo de resgate da honestidade no meio público é mais complicado que o da redemocratização política. Entretanto, o País está realizando isto e, embora exista o temor da impunidade, os fatos vão revelando que o caminho está certo e que é preciso continuar em todos os sentidos, seja na investigação, seja na conscientização maior da população. É óbvio que não se pode permitir ou sequer aceitar estes crimes, que são ainda mais graves porque realizados contra todo o povo brasileiro. Os ladrões do dinheiro público - os pegos agora, os anões do Orçamento de antes, ou os do esquema PC que levaram à destituição de um presidente da República - são criminosos piores que os assaltantes porque agem contra o patrimônio público, tirando de todos para enriquecer.
Mas estão sendo apanhados. A velocidade da punição, infelizmente, ainda é pequena. E o montante dos assaltos, ao que se percebe, é cada vez maior. Até por isto, a investigação e conhecimento sobre todos estes esquemas é difícil. Mas com a exigência da sociedade de se acabar com este esquemão criminoso, podemos confiar em que o Brasil se verá livre um dia desse tipo de ladroagem. Um dia que, se todos quisermos, não está distante.





